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quatro de treta e um bebé!

"Não me digam que concordam comigo! Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que estou errado." – Oscar Wilde

quatro de treta e um bebé!

"Não me digam que concordam comigo! Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que estou errado." – Oscar Wilde

28
Set18

Sobre o Acórdão do Tribunal da Relação do Porto e o crime de abuso sexual de pessoa incapaz de resistência

quatro de treta e um bebé

Ainda sobre o Acórdão do Tribunal da Relação do Porto, é a nossa vez de deixar uma breve análise.

Falamos do Acórdão de 27 de junho de 2018, proferido por Maria Dolores da Silva e Sousa (relatora) e Manuel Soares, presidente da ASJP (Associação Sindical dos Juízes Portugueses), que confirma parcialmente a decisão condenatória de dois arguidos pelo crime de abuso sexual de pessoa incapaz de resistência (disponível aqui).

 

Desde já alerto que este não é um post bonito, principalmente porque a descrição dos factos não é fácil de ler, como é habitual em relação a crimes sexuais.

Desde já digo também que este não é um comentário do ponto de vista femininista, apesar de eu o ser, assumidamente. Sou-o por causa de factos, porque os crimes sexuais são esmagadoramente cometidos contra mulheres, e esmagadoramente cometidos por homens, e porque o cunho machista da sociedade é-nos inerente a todos, ainda que alguns possam ter mais noção disso do que outros e, consequentemente, o consigam combater. Este, como tantos outros em Portugal, é o caso de uma mulher vítima de um crime de abuso sexual cometido por dois homens. Contudo, não é essa a perspectiva que aqui me interessa, e que fique bem claro que estaria a fazer este mesmo comentário se se tratasse de um homem vítima e de duas mulheres agressoras.

Se forem como eu, uma das primeiras perguntas que vos assola a mente é “e onde é que estavam os amigos ou amigas daquela rapariga?”. Pois é, mas isso é uma consideração que não vou sequer tecer, e vou cingir-me àqueles factos reprováveis que constituem, efetivamente, crime.

 

Vamos, então, ver o que ficou provado que se passou.

(porque, para uma análise de Direito, o que interessa é o que se provou, e neste caso os factos provados são abundantes, completos, coerentes e clarividentes)

 

Os arguidos, “C” e “D”, estavam a trabalhar no bar discoteca onde se passaram os factos, um como porteiro e o outro como barman.

As amigas “E” e “G”, no período noturno, foram até esse bar, onde já tinham estado anteriormente, pelo que conheciam minimamente os arguidos. Sabe-se que dançaram e que consumiram bebidas alcoólicas.

Perto da hora do fecho, estando já o bar com poucos clientes, um dos arguidos serve shots grátis a “E”. Já depois da hora do fecho, “C” aproxima-se de “G”, que está deitada num sofá, indisposta. “E” e “B” também se aproximam. “E” sente-se indisposta, pelo que o arguido “B” vai com ela ao exterior. Mais tarde, já estando o bar fechado e encontrando-se presentes apenas os dois arguidos e as duas amigas, a vítima, juntamente com o arguido “B”, vai para a casa de banho, onde fica sentada no chão, junto à sanita, para onde vomitou. O arguido “C” esteve na casa de banho e verificou os sinais de embriaguez de “E”. Entretanto, o arguido “C” levou “G” até casa desta, tendo regressado ao bar.

“E” perdeu a consciência, altura em que o arguido “B”, verificando a incapacidade da ofendida de reger a sua vontade e de ter consciência dos seus atos, resolveu e com ela manteve relações sexuais de cópula vaginal completa, depois de a ter despido da cintura para baixo. “E” voltou a si, deitada no chão, com a cabeça encostada à porta de entrada, quando sentiu um empurrão na porta, ouvindo "B" e "C", que entretanto tinha regressado. Momentos depois, “E” perdeu novamente a consciência, só voltando a recuperar os sentidos quando, ouvindo as vozes dos dois arguidos, sentiu umas palmadas na zona dos seus glúteos, apercebendo-se também aí que tinha roupa puxada até à zona dos joelhos, e que se encontrava posicionada de bruços, com o tronco totalmente apoiado na área do lavatório. “E” perdeu novamente a consciência, só voltando a recuperá-la quando se encontrava sentada no sofá do bar discoteca, nessa altura vestida e estando junto a si os arguidos, tendo um deles atirado com água para o seu rosto. Ficou provado que “C” e “B” tinham pleno conhecimento das circunstâncias e que “B”, em primeiro lugar, e “C”, em segundo, mantiveram relações sexuais de cópula vaginal completa com “E”, enquanto esta estava na casa de banho sem consciência de si própria e incapaz de dispor da sua vontade.

De manhã, “C” levou “E” a casa, apelando-lhe que esquecesse o que tinha acontecido, pois não podia colocar em causa a sua vida pessoal e familiar e que lhe daria em troca o que quisesse, incluindo dinheiro. No dia seguinte, “C” e “B” trocaram várias mensagens com “E”, alegando que não teriam feito nada de errado, que “E” teria consentido, insistindo na não apresentação de queixa e na não divulgação dos factos.

 

“E” ficou com equimoses e hematomas em várias partes do corpo. Esta é a única referência que é feita em relação às consequências que os factos tiveram para a vítima. Em momento algum se refere os danos psicológicos ou os efeitos na vida de “E”.

 

Por outro lado, a condição sócio económica dos arguidos consubstancia uma exposição maior do que a dos factos provados.

 

Não se prova que os arguidos tenham atuado de forma conjunta e concertada. Contudo, fica provado que cada um soube que o outro abusou sexualmente da vítima.

 

Os arguidos não têm antecedentes criminais. O que quer dizer, e já que estamos a ser tecnicamente corretos, que nunca foram condenados.

 

Na motivação da decisão, diz-se que os arguidos admitiram boa parte dos factos, “todavia, colocando a sua prática como uma consequência normal (e consentida) do envolvimento entre eles e a ofendida”.

 

O tribunal, em 1ª instância, condenou os arguidos pela prática de um crime de abuso sexual, cada, em penas de 4 anos e 6 meses de prisão, com execução suspensa por igual período.

 

Estes são os factos.

Da decisão de 1ª instância, o Ministério Público recorre quanto à suspensão da pena, considerando que se justifica a aplicação de pena efetiva.

 

Naturalmente que, ao analisar este caso, não nos estamos a cingir única e exclusivamente à decisão do Tribunal da Relação do Porto. É óbvio que o tribunal de Gaia, em 1ª instância, analisou e decidiu os factos, nos termos acima vistos. Se discordamos da decisão de suspensão, que é a que é analisada na Relação, discordamos também da decisão que a aplica em 1ª instância. Contudo, não tivemos acesso à decisão em 1ª instância, ao passo que, como todos sabemos, a decisão da Relação é publicada e, consequentemente, aberta a análise e discussão.

 

Vejamos os factos como se de um caso de faculdade se tratasse, em primeiro lugar quanto ao tipo de crime.

 O artigo 164º do Código Penal refere-se ao crime de violação, enquanto o artigo 165º se refere ao crime de abuso sexual de pessoa incapaz de resistência. Seria violação, em termos técnico-jurídicos, se os arguidos tivessem tornado a vítima inconsciente, ou por outro meio a tivessem constrangido a praticar relações sexuais. Ora, no primeiro caso, a moldura penal vai de 3 a 10 anos e, no segundo, de 1 a 6 anos. Já o crime de abuso sexual de pessoa incapaz de resistência, consistindo em praticar ato sexual, no caso cópula vaginal, com pessoa inconsciente ou incapaz de resistir, aproveitando-se do seu estado de incapacidade, é punido com pena de prisão de 2 a 10 anos. Ou seja, em termos técnico-jurídicos, a correta aplicação da lei implica enquadrar os factos no crime de abuso sexual de pessoa incapaz de resistência, e esta não é uma aplicação chocante ou em benefício do arguido, uma vez que a moldura penal aplicável é até semelhante à da violação, e que é exatamente para este tipo de factos que o tipo legal está pensado. Entenda-se, portanto, que a crítica ao acórdão e à decisão (em 1ª ou 2ª instância) não advém do tipo legal em causa. Por outro lado, não está sequer em discussão a pena aplicada, que não foi alvo de recurso, pelo que, concordando ou não com a pena aplicada de 4 anos e 6 meses, numa moldura penal de 2 a 10 anos, não nos vamos pronunciar sobre este aspeto.

 

O que causou a reação de estupefacção foi, por um lado, a manutenção da suspensão da pena, e, por outro, as considerações tecidas por quem proferiu a decisão em sede de recurso.

 

A ASPJ foi muito rápida a emitir uma nota informativa, o que não é de estranhar se nos lembrarmos que um dos juízes decisores é o seu presidente. Defendendo exacerbadamente o acórdão proferido, a ASPJ faz o favor de explicar o que não é verdade e o que não está em causa no caso.

 

A ASPJ explica-nos “não é verdade que tivesse considerado que o crime de abuso sexual de pessoa incapaz de resistência ocorreu num ambiente de sedução mútua; essa qualificação refere-se ao contexto que antecedeu a prática dos crimes e que foi tida como relevante para a determinação da pena.” Aaah! É que o problema estava em quando é que o tribunal tinha considerado haver sedução mútua, assim ficou tudo esclarecido. Mas esperem, o que é que tribunal considerou “sedução mútua”? Diz-se que, a certa altura da noite, durante alguns instantes, a vítima foi vista a “dançar mais junto” de um dos arguidos. Se isto for considerado sedução, terá sido mútuo? Terá o arguido dançado? Pelo menos não consta dos factos provados… e será que a sedução foi tão intensa que, ao dançar junto a um, se estendeu a ambos os arguidos? Ou será ainda que o clima de sedução mútua foi entre os dois arguidos?! ASPJ, era aqui que precisávamos de alguns esclarecimentos.

Outro aspeto curioso desta nota informativa é o facto de alegar peremptoriamente que “não é verdade que tivesse havido violação, que no sentido técnico-jurídico constitui um tipo de crime diferente, punível com pena mais grave”. Ora, do ponto de vista técnico-jurídico, deve ter-se cuidado com o que se diz que é verdade; talvez fosse mais correto, estritamente do ponto de vista técnico-jurídico, dizer que os factos provados não integram o tipo legal de violação. Acresce que, como já vimos, não é completamente inequívoco dizer que o crime de violação é punível com pena mais grave. A ASJP termina clarificando que “os tribunais não têm agendas políticas ou sociais”, esclarecimento que muito nos acalma e que desde já agradecemos, e demonstra uma evidente preocupação com o agravamento do sofrimento e direitos da vítima dos crimes pelo facto de se debater o acórdão em causa, preocupação que sufragamos e que voltamos a agradecer.

 

Em termos técnico-jurídicos, analisemos o objeto do recurso, a suspensão da execução da pena de prisão.

Estipula o artigo 50º do Código Penal que “o tribunal suspende a execução da pena de prisão aplicada em medida não superior a cinco anos se, atendendo à personalidade do agente, às condições da sua vida, à sua conduta anterior e posterior ao crime e às circunstâncias deste, concluir que a simples censura do facto e a ameaça da prisão realizam de forma adequada e suficiente as finalidades da punição”.

No caso em concreto, o requisito formal verifica-se, uma vez que foi aplicada pena de prisão de 4 anos e 6 meses.

O resto do artigo manda atender a elementos que, forçosamente, têm de ser analisados, pelo que não só se entende como se concorda que se analisem todos estes aspetos, nomeadamente aqueles que dizem respeito à pessoa do arguido, ainda que não se veja ser necessário escrever um livro de romance sobre a sua vida.

Cito algumas passagens do acórdão, para que não surjam dúvidas da sua má interpretação: “a culpa dos arguidos [embora nesta sede a culpa já não seja chamada ao caso] situa-se na mediania, ao fim de uma noite com muita bebida alcoólica, ambiente de sedução mútua, ocasionalidade (não premeditação), na prática dos factos”; “a ilicitude não é elevada. Não há danos físicos [ou são diminutos] nem violência [o abuso da inconsciência faz parte do tipo].“

 

O acórdão debruça-se ainda sobre todos os impactos negativos que os factos podem ter implicado para a vida dos arguidos.

É que o crime em questão, e o processo judicial daí decorrente, trouxe muitos incómodos para a vida dos arguidos! Quer dizer, pelo que percebi, ficaram sem emprego e uma relação amorosa terminou, quiçá por causa dos factos em causa, mas isso é muito grave. Diz-se que “B” “revela apreensão com o presente confronto com o sistema de administração da justiça penal e com as suas eventuais consequências”. Também “C” revela “apreensão face ao seu desfecho e preocupação relativamente às suas consequências em termos pessoais e familiares”.

 

As considerações em relação à personalidade dos arguidos não podem deixar de atender ao facto de, por exemplo, cada um deles saber que o outro abusou sexualmente da vítima, e isso não lhe causar repúdio algum, o que é demonstrador de que, apesar de se admitir que o abuso sexual possa não ter sido planeado ou possa não ter sido concertado em conjunto, os arguidos vêem os factos como normais. Acrescente-se que o próprio tribunal considera que os factos revelam "a presença de duas personalidades mal formadas e distanciadas do dever ser jurídico-penal".

Os percursos de vida dos arguidos são analisados de forma bem descritiva e, atrevemo-nos, até um pouco romantizada, quando constatamos que se chega a demorar mais a explanar as suas condições de vida do que a descrever os factos provados.

Quanto à conduta anterior e posterior ao crime e às circunstâncias deste, não haverá muito a acrescentar, sendo os factos provados tão completos e suficientes. É nesta fase da análise que os juízes terão considerado o alegado ambiente de “sedução mútua”. Mais uma vez esclareço, não se põe em causa que os elementos relativos à conduta anterior e posterior ao crime e às circunstâncias deste sejam analisadas, como naturalmente decorre do artigo mencionado! Questiona-se, contudo, como é que se pode considerar que tenha existido um ambiente de “sedução mútua”, que já vimos não decorrer de quaisquer dos factos provados, e choca-se que se possa considerar que uma eventual sedução mútua pudesse ser determinante a suspensão da pena de prisão. Porquê é que é tão chocante essa consideração? É que ler tal contemplação leva-nos a teorias vitimológicas, que queremos acreditar estar já arredadas, de que a conduta da vítima ou a sua eventual contribuição para os factos, pode ter o impacto de diminuir a pena ou suspender a sua execução. Digo-o com todas as letras, e não me sinto culpada de o fazer, porque é de facto uma preocupação grande e uma consequência muito grave pensar que os nossos decisores podem ainda acreditar nestas considerações. E digo-o porque me sinto afetada por decisões anteriores, não tão antigas, que fazem atender a considerações tão chocantes quanto a do “macho ibérico”, a da rapariga que “estava a pedi-las”, a diminuição da culpa do agente tão acentuada quanto for o decote da vítima, e como é que eu poderia não me sentir afetada, magoada até?     

Depois de considerar todos aqueles elementos, para suspender a pena, o juiz tem de “concluir que a simples censura do facto e a ameaça da prisão realizam de forma adequada e suficiente as finalidades da punição”. E aqui volto a estremecer.

 

O tribunal afirma que houve a negação absoluta dos factos, é claro no sentido de que os arguidos e que procuraram centrar as suas preocupações nas suas pessoas e nas consequências para si e de que não ficou demonstrado qualquer arrependimento. É difícil imaginar o salto lógico que vai destas considerações à decisão de suspensão.

Considera-se que as necessidades de prevenção geral são prementes, dá-se bastante atenção a este aspeto. Já quanto às exigências de prevenção especial, consideram-se as mesmas medianamente acentuadas, e até se diz que parece que arguidos se empenharam a prestar auxílio às duas raparigas, sentando-as no sofá e levando-as a apanhar ar, ficando a dúvida quanto às suas reais intenções (como não nos sentirmos profundamente gratas?!).

Toma-se em consideração, para fundamentar a suspensão, desde logo, a primariedade dos arguidos; em termos técnico-jurídicos, como diria a ASJP, tal não significa que os arguidos nunca praticaram factos semelhantes, antes que nunca foram por tal facto condenados. Por outro lado, entende-se que os arguidos “não têm particulares factores de risco associados a problemas comportamentais que revelem disfuncional idade na vertente afectiva, ou dificuldade de autocontrolo dos respectivos impulsos, que urja acautelar”, e que “revelaram noção da gravidade dos factos”, o que até pode parecer contradizer o anteriormente constatado.

Além disso, o tribunal atesta que “apesar da censurabilidade das suas condutas, os danos físicos provocados não assumem especial gravidade considerando o período de cura das lesões provadas essencialmente com as palmadas (equimoses e hematomas)”. A sério que existe alguém a quem esta afirmação não cause um calafrio? Primeiro, porque ficou provado que a vítima foi abusada sexualmente junto à sanita, por um dos arguidos, e depois levada e colocada junto do lavatório, para ser abusada sexualmente por outro dos arguidos. Não fica demonstrado como ou quem a colocou nessa posição, mas depreendemos que não tenha ocorrido por magia, e, do meu ponto de vista, o facto de se ter ajeitado o corpo daquela mulher incapaz de resistência é um facto, só por si, bastante revelador da personalidade dos arguidos. Além dos danos decorrentes desta movimentação e do próprio ato sexual, um dos arguidos, não se sabe qual, desferiu palmadas (quiçá acometido pelo clima de sedução mútua?!), que não deverão ter sido suaves, considerando que deixaram marcas claras no corpo da vítima. Mais grave ainda é que se escolha falar dos danos físicos, porque os decisores escolheram trazer este dado à colação e escolheram fazer constar do texto do acórdão esta bela frase, e se tenha escolhido ignorar por completo os danos psicológicos que o crime poderá ter tido na vítima e que, como bem sabemos, são, por regra, bem mais graves e bem mais consequentes nos crimes de abuso sexual do que os danos físicos propriamente ditos. O tribunal continua, dizendo que “acresce o diminuto receio de cometimento de novos e idênticos factos atento o facto de não haver notícia da posteriores deslocações da ofendida ao “F…” ou de qualquer tipo de contacto entre ela e os arguidos, com núcleos de vida familiar e profissional perfeitamente afastados”. Mais um calafrio. Os arguidos não voltarão a praticar um crime de abuso sexual porque não é provável que voltem a ver a vítima? E o facto de não verem a vítima tem a ver com esta não se deslocar àquele bar? Conseguem ver como, ainda que não deliberadamente, os decisores voltam a pôr a tónica no comportamento da vítima, ao invés de focarem na potencial perigosidade dos agressores? Não ponho em causa que até seja improvável que os arguidos voltem a praticar aqueles factos com aquela vítima. Contudo, não seria fundamental, pelo menos, analisar a possibilidade de virem a praticar aqueles factos com uma outra vítima? Pelo menos, falar disso! Os arguidos trabalham na área do entretenimento noturno, é altamente provável que voltem a estar em contacto com pessoas embriagadas, muito provavelmente pessoas incapazes de resistência, talvez até inconscientes. Os arguidos não admitiram que o que fizeram é errado (de um ponto de vista técnico-jurídico, claro), não mostraram arrependimento, não mostraram interiorizar as normas legais violadas (ou abusadas, para não ferir suscetibilidades). O diminuto receio de cometimento de novos e idênticos factos só poderia ter como fundamento a interiorização da gravidade das suas condutas, de forma a que ficasse esclarecido, para lá de qualquer sombra de dúvida, que aqueles arguidos entenderam que não podem abusar sexualmente de qualquer pessoa, mulher ou homem, que encontrarem caída numa qualquer casa de banho, incapaz de oferecer resistência, por muito que lhes possa parecer boa ideia ou até apetecer. E, daquilo que me parece, isto não ficou claro.

Desta forma, do que ficou exposto, não se pode concluir que a simples censura do facto e a ameaça da prisão realizam de forma adequada e suficiente as finalidades da punição, como manda a norma legal.

E daí que, no sentido técnico-jurídico, não possa concordar com a decisão tomada. 

Não posso, de igual modo, não me incomodar com a fundamentação da decisão tomada, com os juízos que os decisores emitem, com os factos que escolhem revelar e os que escolhem nem referir, e com o facto de não se aperceberem da gravidade de algumas das frases que escolheram escrever.

 

O acórdão em questão foi já sobejamente comentado, pela APAV, pelas Capazes, no Público (aqui e aqui), e até deu origem a manifestações. Aliás, o impacto foi tanto, que foi até noticiado, internacionalmente, pela Fox News.  

 

A propósito da temática dos crimes sexuais, o Expresso deixa-nos o facto curioso de que o único crime violento que aumentou em Portugal foi a violação.

Quanto à suspensão da pena, o Público revela-nos o pormenor da grande taxa de suspensão da execução das penas de prisão no que concerne aos crimes sexuais.

 

Antes de fechar esta análise, não posso deixar de referir o debate, a propósito do acórdão, com a Secretária-Geral da ASJP e da professora Inês Ferreira Leite, comentado no Diário de Notícias (que inclui link para a gravação da entrevista). 

Não espanta que o discurso da Secretária-Geral seja conforme ao plasmado na nota informativa da ASJP. O que espanta aqui, e que merece, por isso, uma nota, é o facto de esta representante ter afirmado, publicamente, que não basta não haver consentimento para haver violação, considerando que, no sentido técnico-jurídico, é necessário que o arguido tenha colocado a vítima na impossibilidade de resistir ou tenha usado violência para que se possa falar de uma violação. Este post já vai longo, pelo que não me vou alargar sobre este comentário. Digo apenas que me sinto profundamente chocada, desiludida e preocupada. E digo ainda que não entendo o medo demonstrado com a confusão que pode surgir entre o crime de violação e o crime de abuso sexual de pessoa incapaz de resistência, até porque o termo violação tem sido usado numa conotação que não é técnico-jurídica, e porque os crimes não são assim tão distintos. Para quem quiser ver a entrevista, fica o aviso, não vá apanharem o choque que eu apanhei, mas valerá a pena ouvirem a parte que concerne à professora Inês, essa sim bastante elucidativa e coesa.

 

Para terminar, sei que muitas pessoas ficam ainda surpreendidas com a reação que este tipo de textos provocam, com a magnitude que a não concordância com os mesmos atinge, e que muitos estranham ou até criticam o tempo dispensado a analisar estas decisões.

Em relação a isso, digo que me alegro genuinamente ao ver que o povo português não acha isto normal, que reage contra o tipo de crime cometido, contra as circunstâncias do mesmo, com a normalidade com que os arguidos olham o mesmo, que se preocupam com as vítimas. Vejo que estamos cada vez mais alertas e cada vez mais capazes de combater os crimes sexuais e os estigmas que os rodeiam.

E isso é uma grande luz ao fundo do túnel.

 

R.

24
Set18

Sou do tempo...

quatro de treta e um bebé

 

 

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 Que saudades tenho da minha infância. Tão feliz que fui. 

Relembro o "ar livre" como algo saudável, como o sítio onde me reunia com amigos para brincar "só mais 5 minutos".

Vivia numa moradia com um enorme terraço e todos os dias, antes e depois do jantar, chamava os vizinhos e juntos brincávamos até os pais nos chamarem.
Tínhamos hora marcada: após a chegada a casa e até ao jantar; e logo após o jantar e até ouvir "meninos, amanhã há escola, é hora de ir dormir!".
Que bom que era!!
Jogávamos futebol, às bonecas, ao esconde-esconde, ao mata, à macaca, pião, caçadinha, quarto escuro, camaleão.... QUE SAUDADES!!!
Os mais novos perante isto diriam: "ah? O que é que ela disse?"
Sim, miúdos, a vida é muito mais do que um quadrado de luz que toca até se desligar e que funciona só com o passar do dedo.
Sei que nos tempos que correm - com tristeza minha - os miúdos não brincam na rua, não chamam os vizinhos para uma caçadinha e têm o quarto como o sítio mágico em que tudo acontece isolados do mundo!!
Dão primazia as PlayStation, gameboy, tabletes, smartphones, ... e - diga-se- vão se tornando cada vez mais "bichinhos do mato".
Os próprios pais alimentam isso, porque assim sempre podem ir, descansadamente, ao Facebook, Instagram, falar uma hora com uma amiga e ver a telenovela sem interrupções.
Porém, anos mais tarde, dos pais desses mesmos filhos ouvimos: "o meu filho fuma há 1 ano e eu não sabia"; "o meu filho tem uma tatuagem e nunca desconfiei";
Vivemos rodeados de tecnologias e todos reconhecemos o seu valor, contudo, não devemos esquecer as relações pessoais, aquelas que verdadeiramente nos alimentam.

A sociedade quase o impõe, pela oferta massiva; contudo, e enaltecendo aquilo que somos e o que esperamos do outro, devemos todos potenciar as relações pessoais, o diálogo, o toque, o "olhos nos olhos".

Não é tarefa fácil, eu sei, mas devíamos todos reflectir sobre isto. Criamos pessoas e com elas aquilo que esperamos da sociedade, precisamente aquela em que nos inserimos e a quem tudo exigimos!

 

S.

 

20
Set18

A contratação do ano na televisão portuguesa

quatro de treta e um bebé

Olá pessoas!

 

Das quatro de treta, eu sou aquela que mais vê televisão, que mais gosta de televisão. Cresci a ver televisão. Sempre tive televisão em quase todas as divisões da casa, incluindo o quarto. Adormeço todos os dias com a TV ligada (com o temporizador, para que esta se desligue sozinha passado um tempo, relaxem, não fica ligada a noite toda!). Falando um bocadinho de mim e deste gosto pela TV, adoro novelas (sim, vejo todas ahah nem que seja o início e o fim), gosto de programas de culinária (Masterchef, hello?), gosto de concursos de cultura geral, gosto de ver programas de dança, sei lá, gosto de televisão, pronto. E, não tenho problema ou preconceito nenhum, em dizer que gosto. Ontem vi a entrevista da Cristina Ferreira na SIC (quem não viu, não é?). Quando foi noticiado que a Cristina iria para a SIC, uma amiga minha partilhou, o link, no nosso grupo do WhatsApp para eu ver, porque disse que eu “a adorava”. Gosto dela, não a adoro. Não sei até que ponto podemos adorar alguém que não conhecemos ou que vemos na TV. De qualquer forma, não cresci com a Cristina. Vejo nela uma boa profissional e uma mulher de trabalho. Uma mulher que em tudo o que se mete tem sucesso. Acredito que ela é uma inspiração para todas as profissionais que querem alcançar o sucesso e para todas as crianças/adolescentes, em especial todas as meninas que estão agora, a crescer, a vê-la na TV. Eu cresci com a Catarina Furtado, nutro pela Catarina uma admiração, aquela que se nutre quando crescemos a admirar uma pessoa que vemos na TV. Mas acho que a Cristina Ferreira é merecedora de admiração e de ser inspiração para as muitas meninas que se estão a tornar mulheres a observá-la e, para muitas que como eu, a encontramos já adultas mas que somos capazes de admirar, pela tenacidade, pelo foco, pelo sucesso. E este sucesso é feito à base de quê? Eu creio que é base de trabalho. Podemos chegar a muito lado sem ser pelos nossos pés, mas ficar lá, ter sucesso e permanecer numa posição que faz a diferença? Isso só é possível com esforço, trabalho e dedicação. E um bocadinho de sorte, provavelmente, vá.

Muito se tem falado desta contratação. A contratação do ano na televisão portuguesa. Acima de tudo, tem-se falado, não porque a Cristina vai deixar a casa onde era rainha, não porque vai deixar o Goucha ou o Teixeira, mas sim porque a Cristina vai ganhar o que, toda a gente, considera balúrdios. São merecidos? A SIC acha que sim. Se não, não lhos dava a ganhar. E não vamos ser ingénuos, nem achar que o que lhe pagam ao final do mês é pela bonita cara dela. A Cristina Ferreira e a marca Cristina movem multidões. Mas não move só pessoas. No dia em que foi anunciada a mudança da TVI para a SIC a Media Capital desceu 14% na bolsa de valores e o grupo Impresa subiu 6%. Como calculam, não é coincidência, foi o efeito Cristina. Caramba, a moça mexe com a bolsa, com o mercado, é natural que seja a contratação do ano. É natural que a SIC (uma empresa privada) estivesse a tentar contratá-la, há muito. Se acho os valores baixos ou altos? Não me cabe dizê-lo. Mas se, no meu trabalho, eu tivesse oportunidade de ganhar o mesmo que ela, obviamente que aceitava. Não vamos ser hipócritas, todos nós achamos que merecemos mais e melhor. Todos nós queremos ter aumentos. E é para isso que temos que lutar, é para termos melhores salários e melhores condições de trabalho. Não para quem os tem ficar pior. Se podemos ter inveja? Podemos, pois claro, somos humanos. Mas por que não ter uma inveja boa? Aquela que nos faz trabalhar mais e inspirar-nos para tentar ser melhor?

Ontem a Cristina frisou um ponto importante. Ela é mulher e ganha mais que muitos homens, na mesma profissão que ela. Exacto. Será que estaríamos a falar do dinheiro que ela ganha se ela fosse um ele? Será que falamos do que muitos jogadores ganham, do que muitos empresários ganham? Dessas contratações falam e revoltam-se? Provavelmente não. E, se não, a questão é, porquê?

Podemos gostar mais ou menos da profissional Cristina Ferreira, podemos ver mais ou menos televisão, posso nem ver a maior parte dos programas que ela faz. Mas acredito, francamente, que a SIC vai passar a ter audiências muito maiores do que tinha sem a Cristina. A SIC vai ganhar muito dinheiro com a Cristina Ferreira. E não é pelo facto da SIC não ter excelentes profissionais, que posso/podemos até gostar muito mais que a Cristina Ferreira. Mas a Cristina Ferreira é o Cristiano Ronaldo ou o Tony Carreira da televisão. Deles também podemos nem sequer gostar, mas temos que admitir, ambos sempre moveram pessoas, sonhos, esperanças e… dinheiro.

F.

17
Set18

Vamos jogar ao jogo da bolha?

quatro de treta e um bebé
Hoje pretendo lançar-vos um desafio. Na verdade, propor-vos um jogo. 
 
Quantos de vocês conhecem o JOGO DA BOLHA? Para os mais distraídos, este jogo é conhecido pela sua "facilidade". Na versão original, pela facilidade de ganhar dinheiro.
 
As regras do jogo são de fácil perceção (neste jogo tudo, à partida, é fácil): apenas entra quem é convidado e a única coisa que cada pessoa tem que fazer é arranjar 2 pessoas que a queriam acompanhar. 
 
 

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Seguindo a imagem supra, também ela de fácil perceção, a primeira pessoa situa-se num primeiro nível, angariando duas pessoas, que se situarão no segundo nível e que, por sua vez, cada uma delas angariará outras duas, formando-se, assim, o terceiro nível. Chegados ao nível quatro (constituído pelas pessoas que o nível 3 angariou) a bolha rebenta e formam-se duas bolhas autónomas. Cada pessoa que estava na bolha original sobe de nível recomeçando tudo outra vez, e assim sucessivamente.  
 
Neste tipo de jogo é vantajoso que  todos trabalhem para o mesmo, independentemente do nível, pois só dessa forma todos crescerão mais rápido. 
 
Posto isto, o que vos venho hoje propor, é o Jogo da Bolha numa versão Feminista (aceitam-se sugestões para alterar o nome do jogo, uma vez que criatividade, como se vê é algo que neste momento não está do meu lado). Sei que o facto de trocar o dinheiro pelo feminismo pode tornar o jogo menos atrativo. Todavia, parece-me que podem experimentar e dizer-me como correu.
 
Sou adepta daquela teoria que nos diz que se queremos mudar o mundo, temos que começar por mudar a nossa própria casa. 
Entendo que de nada serve fazer parte de associações, movimentos cívicos, grupos disto ou daquilo, fazer campanhas, ir para as ruas com cartazes, chocar, expor, dizer que, se não se faz o básico, o mais banal, o mais fácil!
Em boa verdade, talvez a melhor maneira de fazer passar a palavra seja através das regras do jogo da bolha. 
 
Sou, clara e convictamente, feminista. E como feminista a primeira dificuldade que tenho é em explicar aquilo que o feminismo não é. Mais do que aquilo que é. Aquilo que não é. E isto, só por si, talvez já diga muita coisa.
 
Sou, também clara e convictamente, tendenciosa quando o tema são associações feministas. Desde logo, porque todas elas, acabam por cair no extremismo e mulher acaba sempre como vítima de alguma coisa.
 
Assim, o meu objetivo a partir de hoje, é conseguir explicar a duas pessoas que me são próximas o que o feminismo não é mas também o que o feminismo é. E convencê-las a fazer o mesmo com outras duas pessoas. E assim sucessivamente, como no jogo da bolha. 
 
Se esta ideia for bem sucedida não teremos mais que assistir a mulheres no mundo a justificar as derrotas com sexismo, e muito menos teremos pessoas a concordar com isso.
A propósito Serena, o feminismo não serve como justificação de derrotas.
 
Já dizia o outro: a diferença entre vencer e fracassar está no saber perder.
 
M.
13
Set18

Primeiras impressões

quatro de treta e um bebé

Conhecemos uma pessoa nova, e agora?

 

É claro que as primeiras impressões importam.

Não vamos fingir que não, ou chamar-lhe de futilidades, nada disso! É uma mera reação natural a um evento da vida.

 

Conhecemos uma pessoa nova e o cérebro cria toda uma nova pasta para arquivar e processar as informações e sensações que os subcontratados sentidos captam.

 

Se forem como eu, e o vosso cérebro já costumar trabalhar a mil à hora, conhecer uma pessoa nova é uma festa: as sinapses disparam, atravessam-se triliões de pensamentos, inúmeros comentários impronunciáveis, a maior parte deles tão rapidamente que nem eu os entendo.

 

Não vamos fingir e dizer que não pestanejámos com combinação de verde alface com cor-de-rosa florescente, que não estranhámos a voz esganiçada que saí daquele homem de quase dois metros, ou que não nos sentimos intoxicados com o perfume intenso do senhor sentado ao nosso lado.

 

Não posso, com toda a verdade, afirmar que não imaginei que um outro corte de cabelo enquadraria melhor aquele tipo de cara, que não pensei que se tivesse aquele corpo adoraria vestir aquele vestido que vi outro dia, que não assumi que aqueles músculos se deveriam a muitas horas passadas no ginásio, que não pensei que, ainda assim, eu venceria se tivéssemos de, por algum motivo, lutar naquele momento, que não pensei que se fosse eu teria investido aquele dinheiro num dentista em vez de comprar uma t-shirt de marca, que não pensei no tempo que aquele senhor com certeza dedicará à sua barba, ou que não me lembrei instantaneamente da minha professora de infância por causa daquele perfume, porque há uma grande probabilidade de ter feito este ou qualquer outro tipo de comentário mental.

 

Não se trata de qualquer futilidade, simplesmente de um cérebro hiperativo e uma imaginação fértil que gostam de participar ativamente na minha vida.

 

E também não se trata de fazer julgar o livro pela capa, ainda que juízos de valor possam passar no meio de toda aquela confusão mental. E é natural que passem, não porque ache mais ou menos de uma pessoa com base na forma como ela se apresenta, mas porque a experiência me vai dando umas dicas sobre o que alguns sinais dizem sobre a personalidade de uma pessoa.

 

Pensam vocês: “mas quem és tu, uma indivídua de cabelo desgrenhado e escassa noção de estilo, olhos esbugalhados e péssima poker-face para achar isso tudo?”; respondo eu: uma indivídua de cabelo desgrenhado e escassa noção de estilo, olhos esbugalhados e péssima poker-face honesta! 

 

Diz quem sabe que demoramos menos de um minuto a formar a nossa primeira impressão. É aquele primeiro impacto, o primeiro embate, o primeiro olhar, som, cheiro, toque. Daí a importância do saber atrair, saber transmitir os traços que queremos, dominar a arte de, nas expressão da Tyra Banks, smize

 

Ainda que esta primeira impressão marque o tom do resto das primeiras interações, não é este o momento que considero mais marcante.

 

Mais marcante ainda são as primeiras impressões mais construídas.

 

São aquelas que decorrem, por exemplo, da primeira conversa ou dos primeiros cinco minutos que passamos com aquela pessoa que acabámos de conhecer. É aquele momento em que o nosso cérebro sente que já recolheu todas as informações necessárias para criar a imagem daquela pessoa, o seu avatar para colocar na pasta que já tinha criado, e então cruza os braços e afirma, de nariz empinado, “já te topei”.

Acredito que essa primeira imagem é muito marcante e essa, sim, dificilmente será desconstruída ou contrariada.

 

Imaginem isto das primeiras impressões como um sistema de pontos!

Após a primeira impressão imediata, o novo jogador é lançado no placard com os pontos que lhe foram atribuídos ao primeiro impacto, positivos ou negativos. A partir daí, há pormenores, palavras, expressões, cheiros, toques ou jeitos que vão dando ou retirando pontos. Quando chega ao momento em que aquela imagem fica assente, a pontuação com que a pessoa nova estiver é aquela que fica marcada. A partir daí, o sistema é o mesmo, mas já não é tão fácil obter pontos positivos ou negativos que façam mudar de forma determinante a pontuação da pessoa e, principalmente, torna-se bastante mais difícil para uma pessoa que tiver ficado com pontuação positiva perder pontos suficientes para passar a ter pontuação negativa, e o contrário.

 

Claro que a internet e o facto de muitos primeiros contactos serem feitos sem contacto físico muda algumas coisas, até porque se perde todo o efeito das hormonas libertadas e todas aquelas coisas químicas que acontecem ao nosso corpo e que são percecionados pela outra pessoa! Mas não vamos entrar por aí, porque isso é toda uma outra conversa.

 

Gosto de pensar que sou uma boa julgadora de carácter. Não é que me recuse a admitir que me enganei redondamente na imagem que tinha associado àquela pessoa, simplesmente isso não me costuma acontecer! Por isso, quando formo uma primeira ideia sobre a pessoa, costumo confiar na minha perceção. 

 

E vocês, identificam-se?

 

R.

 

10
Set18

Carta da B. ao Papá

quatro de treta e um bebé

20 de novembro 2017.

Durante umas horas, eu e mamã tivemos um segredo só nosso.
Era hora de almoço, depois de uma manhã de trabalho com a mamã no escritório, quando lhe disse que estava ansiosa e te queria anunciar a minha chegada. Queria fazê-lo de forma marcante e, simultaneamente, ternurenta.

Pedi-lhe que te fosse comprar um presente meu para ti.
Foi então que, numa ardósia, a giz, te escrevi: "Adoro-te, Papá!" como o maior amor que tinha na ponta dos dedos.

E logo ali, quando te anunciamos e te vi de lágrima no olho e cheio de emoção, soube que não podia escolher melhor para mim. 

Tão apaixonado e ainda não me conhecias. Tão meigo e tão dócil com a mamã. 

Foram tantas as vezes que me acariciaste, e tantas as que me segredavas ao ouvido quando estava eu, ainda, na barriga da mamã.
Vezes houve em que a mama já dormia e nós ficávamos à conversa e no mimo; só nós!
Não sabes o quanto isso me fazia feliz!
Gosto tanto de ti, Papá!

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 No dia 05.07.2018, timidamente, cheguei e, logo me apelidaste de "princesa".

Na barriga já sentia o melhor de ti, sem saber que, a partir do momento em que me pegaste nos braços, tudo daí em diante seria, ainda, melhor.
Adoro quando cantas para mim, quando me acalmas nos teus braços, quando me adormeces e quando enches esse sorriso de baba só de olhar pra mim.

Tão bons esses momentos e tão nossos.
No dia 20 de novembro "soube que era amor para a vida toda".
Da tua princesa, 
Benedita ❤️

 

 

 

 

 

06
Set18

Como conhecer pessoas novas quando temos mais de 25 anos

quatro de treta e um bebé

Tenho 26 anos (quase 27), uma relação estável, várias amizades de longos anos.

Não sou propriamente uma pessoa que tenha dificuldade em falar com pessoas, as más-línguas chamar-me-iam até tagarela, apesar de paradoxalmente ter bastante dificuldade em aproximar-me e baixar defesas.

 

Numa conversa recente, falava sobre a dificuldade de conhecer pessoas novas.

Não tenho qualquer interesse romântico em conhecer alguém. Contudo, tanto eu como o meu namorado já passamos, recentemente, por aqueles momentos em que olhamos à volta e pensamos “para onde foram todas aquelas pessoas que se chamavam amigos?!”.

Costumava ser tudo tão mais fácil quando alguém se encarregava de traçar o plano para a nossa vida… Ainda bebés, os nossos pais marcavam encontros com outros bebés. Já crianças, faziam o mesmo, mas já não achávamos tanta piada. Ainda assim, em creches, jardins-de-infância, escolas, sabíamos que tínhamos de passar aquelas horas juntos, no mesmo sítio, por isso lá acabávamos por ficar a conhecer bem aquelas pessoas. Na universidade, mais fácil ainda! Era só entrar pela universidade e lá estavam aquelas pessoas que costumávamos encontrar, um aceno ali, um abraço acolá, duas de treta aqui, e de repente parecíamos verdadeiros animais sociais.

Depois crescemos (pelo menos na teoria, não é M.?!). Temos menos tempo, menos paciência, mais obrigações.

No escritório, as pessoas do costume. No fim-de-semana, as pessoas do costume. No pouco tempo que sobra, queremos estar com aquelas pessoas, o namorado, a família, aqueles amigos que conhecemos tão bem e com quem finalmente conseguimos marcar um café.

 

Vamos lá pensar, quem foram as últimas pessoas com quem fizeram amizade?

Quanto a mim, recentemente, conheci pessoas na Ordem (Olá, meninas!) e no mestrado, mas isso já acabou. E agora?...

 

E reparem que tratando-se de conhecer parceiros românticos, o bicho-de-sete-cabeças multiplica-se.

Se fosse a referendo, éramos capazes de implementar o casamento arranjado, cem por cento de eficácia e zero por cento de preocupações em encontrar alguém, uffa! Reparem no sucesso de programas para conhecer pessoas (de novo, a maior parte parceiros românticos), The BachelorMarried At First Sight (que aparentemente vai chegar a Portugal), Next, Naked Attraction.

 

E a pergunta do milhão de euros é: Como conhecer novas pessoas?

A nossa geração responde logo Tinder! Para os mais desatentos, o Tinder é uma aplicação de encontros românticos, em que se “aprova” uma pessoa pela sua fotografia e, caso haja “aprovação” mútua, se inicia uma conversa. Problema? Além do problema óbvio se destinar apenas a interesses românticos (“mmm, com base nesta foto, acho que esta pessoa vai ser uma excelente companhia para aquela peça de teatro!”), não há como contornar o interesse sexual subjacente. Apesar de histórias de sucesso, de boa gente que se apaixonou e que têm uma relação estável com alguém que conheceram por esta via, deduzo que a esmagadora maioria consubstancia (apenas) uma noite de sucesso. Um Tinder para casais que procuram casais amigos, isso existe?! Nem vou falar do quão aborrecido é ter que explicar que sim, um homem e uma mulher podem, efetivamente, ser amigos, sem a parte do coloridos!

Já ouvi falar de aplicações para marcar jantares com desconhecidos, o que me parece uma ideia genial, como a Foodfriends, mas a verdade é que nunca a experimentei, nem sei como a usar, por isso, não sei se funciona!

Formações ou workshops? Problema, a maioria são pagas.

Saindo à noite? Certo, já conheci muito boa gente dessa forma. Claro que depois há o problema de ter que explicar que estamos na noite à procura de amigos, e, sei lá porquê, a maior parte das pessoas perde o interesse! Acresce que parece que a maior parte das pessoas da nossa idade acham que já passou o tempo de sair à noite, parece que deixou de fazer tanto sentido (certo, F.?! A M. sabe que ainda faz sentido, ainda que o corpo não aguente a mesma frequência!).

Amigos de amigos, sempre uma forte hipótese. Há o senão da pressão de tornar as coisas estranhas, quando eventualmente discutirmos, mas é uma das melhores opções para casos não românticos (ou românticos!).

Coloco um anúncio? Redes sociais (“olá, acho-te muito gira, queres trocar números?”)?

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Grupos de atividades! Aquele grupo de caminhadas, isso pode parecer interessante. Mas aí estou a criar amizade com uma pessoa que assumidamente gosta de caminhar (credo!).

Ginásio, desporto? Tem de haver uma maneira menos… suada!

Fiz o impensável, recorri ao Google! Claramente, não sou a única com esta interrogação! Desde artigos sobre se “é possível fazer amigos depois de certa idade” até “como encontrar o amor na vida adulta”, encontramos dicas que tornam tudo tão mais óbvio, como “sê sincera”! Ah, afinal é esse o truque... 

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Novas opções e ideias vão surgindo, afinal, de tudo nasce um negócio! Aparentemente, tal como a aplicação que referi acima, existem já páginas e plataformas pensadas para este problema! A plataforma Portuguese Table permite a inscrição de anfitriões que se propõem a cozinhar e a receber um grupo de pessoas, estabelecendo o preço e menu das mesmas. Já a plataforma TastePlease permite a inscrição quer como anfitrião, quer como convidado, e ainda a organização de jantares de grupo com desconhecidos em restaurantes, como uma verdadeira rede social para jantares.

Outro conceito engraçado é o das mesas comunitárias, ou mesas comuns, que vemos surgir em vários restaurantes, como o Brick Clérigos: uma única mesa com vários lugares. Não há “mesa para um”, nem se escolhe quem é a pessoa que se vai sentar ao nosso lado. Diz-se que este conceito convida ao convívio, mais não seja pela vontade de provar aquele prato ou dividir aquela tábua. Ainda não experimentei, mas estou aberta a convites, fica a dica!

(por esta altura já devem ter percebido a ligeira obsessão pela comida 🙊)

 

Há quem o faça parecer fácil (“Have you met Ted?”). 

 

Mas a verdade é que, a partir de uma certa idade, fazer novas amizades parece mais difícil. Será que nos tornamos mais exigentes? Menos crédulos? É porque já nos magoaram demasiadas vezes? É porque nos fazem crer que já temos de ter tudo decidido? Dizia-me essa amiga que sentia que já tinha feito os amigos que tinha de fazer. Como se tivesse fechado a “época de transferências”, plantel fechado. Não acredito que funcione assim. Quero conhecer novas pessoas, que tragam algo de novo à minha vida, que me ofereçam uma perspectiva nova, que estimulem estes velhos neurónios.

 

Como? Ainda estou a investigar essa parte…

 

Há sugestões por aí?

 

R. 

04
Set18

O regresso dos cérebros deste país.

quatro de treta e um bebé

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Na passagem do PS, por uma das vilas mais bonitas de Portugal, Caminha, no passado dia 24 de agosto, António Costa tira o Coelho da cartola, e aclama aos "cérebros" que este país viu partir rumo a outros países que precisavam mais deles do que nós: "VOLTEM! Voltem que em troca tenho um desconto de 50% no vosso IRS para vos dar"!

 

Conta quem viu que tal aclamação gerou uma enorme confusão nos aeroportos! Eram quilómetros e quilómetros de filas de emigrantes portugueses prontos a comprar o primeiro bilhete disponível para voltar para Portugal. Foi necessário alguém intervir, meter ordem em tamanha confusão, e dar as más notícias: CALMA! Afastem-se lá e ouçam as coisas como deve de ser! ISTO NÃO É PARA TODOS! Era o que mais faltava!


Antes de mais é só para quem emigrou entre 2011 e 2015. Por isso, os que não emigraram dentro desse período podem voltar à sua vida medíocre com um salário miserável de tão superior que é comparativamente ao que estariam a ganhar em Portugal.
E mesmo que tenham emigrado dentro do período referido, nem todos podem usufruir da medida. Isto é só para os qualificados. Se não tens curso superior, Portugal não precisa de ti!
E se tens tudo isso mas na altura tinhas vontade de partir, então fica onde estás. Porque esta medida também é só para aqueles que, cumprindo os outros dois requisitos, "foram sem vontade de partir", citando as palavras do nosso primeiro-ministro.


Posto isto, podem formar fila aqueles que preenchem, cumulativamente, os referidos requisitos e tenham na vossa posse os comprovativos que atestem o efetivo preenchimento dos mesmos.


Conta quem viu que no momento em que este discurso terminou, os poucos emigrantes portugueses que ainda ali se encontravam, viraram costas com o semblante cabisbaixo e dirigiram-se às saídas mais próximas.
Com que então achavam que era só voltar e usufruir de 50 % de desconto no valor do IRS, durante um período de tempo? Ridículos!


Tão ridículos como aqueles que perguntaram porque não se tratava da mesma forma os emigrantes que saíram do país noutros anos não compreendidos nesse lapso temporal.


Aos mais desatentos cumpre-me avivar a memória. A nossa Constituição estabelece o princípio da igualdade, segundo o qual, deve tratar-se de forma igual os iguais e de forma diferente o que é diferente.
Ora, perguntam vocês, o que torna diferentes os emigrantes de 2011 a 2015, dos emigrantes de 2010 ou 2016? Numa primeira análise, a frio, e como tal com grande probabilidade de estar errada (mas se calhar nem tanto quanto o nosso primeiro-ministro), os de 2010 e 2016 não são "cérebros" e como tal o nosso país não precisa deles. De portugueses sem cérebro está o país cheio ( e quanto a isto não há margem de erro ).
Os emigrantes de 2010 e 2016 já mostraram uma clara incompetência. Os primeiros não souberam esperar mais um ano, os segundos foram tarde de mais. Era assim tão difícil perceberem que só poderiam emigrar entre 2011 e 2015 ?

E os jovens do país que não emigraram, sequer? Pff, totós! Agora tomem lá paguem o IRS na totalidade. Para a próxima sejam espertos.

 

M.

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