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quatro de treta e um bebé!

"Não me digam que concordam comigo! Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que estou errado." – Oscar Wilde

quatro de treta e um bebé!

"Não me digam que concordam comigo! Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que estou errado." – Oscar Wilde

22
Mar21

O segredo do mental coach, ou lá o que é.

quatro de treta e um bebé

Antes de mais, desculpem psicólogos deste país (e do mundo, também).

Começo o artigo de hoje, com este pedido de desculpas que, apesar de duvidar que sejam aceites, são sentidas. De verdade.

Não sou uma fã da psicologia, em geral. Não me cativa, não me desperta curiosidade, faz-me revirar os olhos constantemente, e se aprofundasse este tema, amanhã teria os psicólogos em ataque direto, defendendo a sua profissão e contra-atacando os advogados, que nada tem a ver com este artigo. 

Mas, efetivamente, é um tema para o qual, mesmo que quisesse muito, não teria paciência para aprofundar. Digamos que me falta o dom (o dom da paciência, entenda-se). Talvez precise de procurar um psicólogo que me ajuda a entender os motivos subjacentes no meu consciente (ou subconsciente, não sei).

Adiante.

Apesar da psicologia, em geral, não me despertar qualquer interesse, por sua vez, a psicologia no desporto já capta a minha atenção.

Ligada ao desporto desde os 8/9 anos, já lidei com atletas de todo o género e feitio. Os muito bons tecnicamente, os muito bons fisicamente, os que não sendo nada disso, conseguem um rendimento de topo, que os outros não conseguem.

Já fui treinada por místeres que focavam as capacidades técnicas das equipas, e outros cujo foco apontava essencialmente para o psicológico. Tratando-se das equipas adversárias, focavam-se naquelas que entendiam ser as atletas "psicologicamente" mais fracas. Que à mínima pressão, ao mínimo contratempo, deixavam, simplesmente, de conseguir executar a sua tarefa, por mais pequena, ou simples, que fosse. 

Em retrospetiva reparo que os segundo (atletas ou treinadores supra) sempre foram mais bem sucedidos. 

A este propósito quem não se lembra do golo do Éder que nos deu o título de campeões da Europa, que perdura até hoje, e da sua mental coach, que apareceu em tudo o que era noticia nos dias (ou meses) seguintes? Afinal, é disto mesmo que vos falo hoje. De pessoas, tecnicamente (ou teoricamente) mais fracas, mas psicologicamente capazes de nos fazer ganhar o campeonato da Europa. Com a ajuda de um mental coach.

Pelo menos na teoria.

Atualmente sou treinadora de uma equipa de voleibol feminino, cujas idades das atletas rondam os 14/15 anos. A idade crítica. A adolescência. Os medos. A psicose. As manias. Os choros. E a minha paciência para tudo isso. 

Tendo perfeito conhecimento das minhas limitações, decidi inscrever-me numa formação barra webinar barra curso on line barra palestra barra conferência barra qualquer coisa barra (doravante somente formação) cujo tema era, adivinhem só, Psicologia no Desporto. E tentar esforçar-me para me tornar algo parecido com um mental coach

Estava motivada. Entusiasmada. Abri a mente, conforme me foi pedido, e tentei aprender os segredos mais bem guardados da psicologia. Do desporto, pelo menos. 

E eis os grandes pilares desse ensinamento:

1 - Há atletas psicologicamente mais fortes e atletas psicologicamente mais fracas. 

2 - Não podemos falar para todos os atletas da mesma forma.

3 - Atletas diferentes reagem de forma diferente à mesma situação.

4 - As vivências de cada uma afeta a sua performance.

Quando esta formação testava os níveis máximos da minha paciência e batia recordes quanto ao número de vezes que revirava os olhos, eis que o formador diz algo novo, diferente, surpreendente e que fez valer toda a formação. 

"Imaginar que desenvolvemos bem uma tarefa antes de dormir, evolui efetivamente a nossa capacidade de realizar essa tarefa."

Ou seja, imaginar que fazemos é tão (ou até mais) importante como fazer. 

Esqueçam os treinos durante horas, esqueçam os sermões, as explicações, a prática. Mudem o paradigma. Andamos a fazer tudo errado.

Após essa formação, alterei os meus treinos. Já não estamos duas horas, três/quatro vezes por semana a treinar. Já não insistimos na prática. Hoje, todas as atletas, todos, os dias, à noite, quando já estão na cama, imaginam-se a jogar a grande nível. Já não me preocupo se faltam, se estão a fazer o movimento ou o gesto errado. Preocupo-me antes com o que imaginam. E se efetivamente imaginam. Para garantir que imaginam bem feito.

E eu, também todas as noites antes de dormir, imagino que tudo isso dá certo. E há-de dar. Com o Éder também resultou. E ainda resulta. Ultimamente imagina-se a não ser convocado. E não é.

M.

22
Abr20

Raios partam as pessoas, em geral.

quatro de treta e um bebé

Odeio pessoas. Acho que não é novidade para vocês, creio que já o referi por aqui uma ou outra vez, talvez de forma mais subtil. Não é desde sempre. É desde que acabei o curso e comecei a trabalhar com pessoas. Este ódio intensificou-se quando entrei na área do retalho. As pessoas fazem as coisas mais incríveis para obter vantagens (a maior parte das vezes, insignificantes). Partilho convosco, a título de exemplo, uma situação caricata de um cliente que pretendia receber uma avultada indemnização, por danos morais, pelo atraso na entrega de uma encomenda online. Alegava que tal atraso (de um dia) lhe trouxera vários transtornos, nomeadamente problemas conjugais e insónias. Para mim, era claro que a pessoa em questão tinha vários transtornos, mas daí a ser responsabilidade da empresa que eu representava, isso já era duvidoso.

Não sei se tirar vantagens indevidas ou aproveitar-se dos outros é algo intrínseco ao ser humano. Gosto de acreditar que não. Contudo, todos os dias, nas mais diversas situações, me deparo com algo que refuta a minha crença.

Devido a um vírus que já todos conhecemos tão bem (pelo menos de nome) e que tem como principal objetivo espalhar-se, contaminar e matar pessoas, entramos em Estado de Emergência e consequentemente fomos aconselhados a ficar em casa. Combatíamos, desta forma, um vírus invisível, como lhe chamamos, e garantimos a salvaguarda do bem mais precioso, a vida. A nossa e a dos outros. 

Este combate acarreta consequências económicas e financeiras, como se sabe, pelo que o estado social é obrigado a intervir e apoiar aqueles que ficam mais fragilizados.

E é neste momento que as campainhas da ganância das pessoas toca e os euros saltam à vista, como os cifrões nos olhos do Tio Patinhas. Cada um começa a perguntar, a si próprio, de que forma vai conseguir obter mais vantagens. Assim, a par das "milhentas" publicações nas redes sociais, tentando mostrar o seu lado humano, de apoio, disponível, onde partilham a revolta contra os que aumentam os preços das máscaras ou impingem serviços ou cobram valores àqueles que deixaram de ter fontes de rendimento ou contra o estado (que não apoia verdadeiramente, que não chega, que não ajuda), planeiam uma forma de obter vantagens. De ganhar dinheiro!

"Sabe Sôtôra, com isto de termos que fechar tudo e mandar os trabalhadores para casa não está fácil. Acabamos por entrar em lay-off. Mas agora estou com um problema".

Imaginem vocês que o estado não cobre os salários dos funcionários que não tem contrato, que não estão inscritos na segurança social. Corrupto esse estado!

E o funcionário em lay-off que se recusa a trabalhar em segredo? Só quer viver às custas dos outros, calaceiro!

E esse maldito estado que não permite que se fechem as portas e se despeça toda a gente, assim sem mais?  Fascistas!

Tal como naquele exemplo caricato, também aqui não me restam duvidas de que há alguém corrupto, calaceiro e, quiçá, fascista. Só não sei se, tal como no exemplo, eu e quem me contacta estamos de acordo sobre quem será essa pessoa. 

M.

25
Mar20

Assim que tiver tempo, prometo.

quatro de treta e um bebé
Há uns meses atrás a F. escrevia-nos sobre o tempo, sobre como "ele" passa e nem nos apercebemos disso. Escrevia-nos sobre como passamos o tempo a desejar que chegue um determinado dia e quando esse dia chega, automaticamente passamos a desejar um outro. E está tão certa!

Nunca arranjamos tempo para estar, para usufruir, para desfrutar. Ou porque temos muito trabalho, ou porque estamos cansados ou porque hoje não dá e amanhã não apetece. A família, os amigos, acabam por se encaixar nas horas vagas que não existem, de uma vida sempre agitada, com tempo contado para coisa nenhuma, coisa essa que é sempre prioritária. Damo-nos conta que passamos mais tempo com pessoas que não nos dizem nada ou que nos dizem muito pouco, com pessoas mesquinhas, de quem nem gostamos, ou até a fazer algo que não nos satisfaz. Porque para isso há tempo, porque isso é o que tem que ser, a isso somos obrigados. E fazemos, e vamos, e (sobre)vivemos aquilo que chamamos de vida, sonhando com um determinado dia, momento ou pessoas.

De amanhã não passa. No próximo fim de semana é que é. No próximo ano não há desculpas. Nas próximas férias, da próxima vez, assim que tiver tempo, na próxima encarnação. Fica para a próxima, prometo!

E de repente, chega um tal vírus que nos obriga a ter tempo. Um tempo imposto. Que nos condena à prisão, sem direito a visitas e que o único contacto permitido é através de videochamadas. E de repente, todos temos tempo. Através de uma pequena câmara, arranjamos formas de tomar café ou jantar com as pessoas que nos são queridas. Arranjamos tempo para ir ao ginásio, jogar cartas ou, simplesmente, estar à conversa. Os filmes parece-nos aborrecidos, os livros cansativos, as redes sociais uma seca. Porque o que gostamos mesmo é de pessoas. De estar com pessoas. E foi preciso um tal vírus aparecer, para nos darmos conta disso mesmo. Um tal vírus que nos mudou as perspetivas e diz-se por aí, que assim que esse vírus nos abandonar, o mundo jamais será o mesmo. As relações pessoais jamais serão as mesmas.  

E de repente, esse tal vírus vai embora. Felizmente, voltaremos à nossa rotina diária. Aos trabalhos que nos tiram tempo e energia, às coisas que nem gostamos assim tanto, mas que tem que ser. E as prioridades que durante estes tempos de quarentena estabelecemos, desaparecerão novamente. Ficarão para mais tarde. Para outra altura. Para quando houver tempo

Diz-se, por aí, que esse tal vírus veio mudar as pessoas. Diz-se por aí e diz-se mal. 

Durante a estadia desse tal vírus, as pessoas fizeram aquilo que fazem sempre. Esperar por um dia que não aquele. E quando esse dia chegar, esperarão por outro. E outro. E outro. Até que não hajam mais dias por que esperar. 

 

M.
09
Dez19

O lado de fora.

quatro de treta e um bebé

O coração acelera e o nervosismo fala mais alto. Num ato irrefletido olho para as minhas mãos que balançam sem parar. Sem que me aperceba disso um braço cruza e o outro vai à boca como se fosse roer as unhas. E eu que nem roo as unhas. Apoio o corpo numa perna e depois noutra. Respiro fundo. Junto as duas mãos como se pedisse ajuda divina. E eu que nem acredito no divino. Ando para um lado. Depois para o outro. Dou por mim a fletir as pernas e volto a colocar-me direita. Pulo e controlo-me. Volto a dar um salto. E depois outro. E paro. Respiro fundo. E recomeço. Sem que dê por isso. Mais uma vez. E outra e outra e mais outra. Até que o apito final se faz soar no pavilhão. E o ritmo cardíaco tenta voltar ao normal, a respiração acalma e as mãos balançam cada vez menos. Não percebes como, nem porque. A adrenalina entrou em dose superior aquela que entra quando estás lá. E saí de forma mais lenta. 

Foram, quase, duas horas a jogar na pior das posições. A mais difícil. A do lado de fora.

M.

10
Out19

Direito de Resposta de Hezalel ao texto "O meu anjo da guarda abandonou-me!"

quatro de treta e um bebé

"Tem direito de resposta nas publicações periódicas qualquer pessoa singular ou coletiva, organização, serviço ou organismo público, bem como o titular de qualquer órgão ou responsável por estabelecimento público, que tiver sido objeto de referências, ainda que indiretas, que possam afetar a sua reputação e boa fama", art. 24.º, n.º 1 da Lei da Imprensa (Lei 2/99, de 13 de janeiro).

Era desta forma que começava a carta que me foi dirigida, e que infra transcrevo, enviada pelo meu querido anjo da guarda, exigindo a publicação da mesma neste blog, que até então tinha algum nível nos artigos publicados. 

Li e reli o artigo supra citado. Acho que conseguia arranjar justificação plausível para não o fazer. Desde logo, e sem entrar nos pormenores da reputação ou boa fama, o meu anjo da guarda não se trata de uma pessoa, organização, serviço ou organismo público, nem me parece ser titular de qualquer órgão ou responsável por estabelecimento público. No máximo será responsável por mim, função que desempenha, digamos, com algum desdém! Mas enfim! Revirando os olhos, enquanto encolho os ombros,  e sob protesto, decidi ceder ao seu "pedido" e acreditar que, desta forma, a partir de hoje, as coisas mudam e as paz prevalece entre nós. Torçamos por isso. Que esta exposição pública não seja em vão. Ou que, pelo menos, me permita pedir uma indemnização...por danos morais.

"Queridos leitores, 

Ao contrário do que foi aqui publicado, a 16 de agosto de 2019, durante estes quase 31 anos (sim, Ela diz 30, mas são quase 31) sempre exerci as minhas funções com total empenho e dedicação. Efetivamente estou cansado, (afinal quem é que trabalha 31 anos, sem paragens, e não se cansa? Nem os anjos!) mas nunca o meu cansaço foi sinónimo de desleixo. 

Dou por mim, por vezes, a tentar perceber que mal terei feito numa outra vida, para que me tivesse calhado Esta pessoa na rifa. Quando levanto esta questão em grupo, é-me respondido, cada vez com menos convicção, que os grandes desafios são entregues apenas àqueles com capacidades para os superar. Cliché! Mas ainda assim, acreditando que merecia melhor, aceitei o desafio e em momento algum me desligo da Pessoa ingrata de quem sou o anjo da guarda. Se bem que mesmo que tentasse, acho que a campainha do perigo tocava. 

Durante estes 31 anos, e por mais difícil que seja, nunca A abandonei. Recordo-me, por exemplo, de quando concorreu à faculdade. Andava numa época em que só via séries criminais, e no momento da candidatura, deixou Direito e Coimbra em 2.º opção e concorreu para Ciências Criminais, no Porto. Acham que foi fácil, retirar-lhe uma décima da média para que não entrasse em Ciências Criminais? Mesmo assim, teimosa, entrou em Direito a pensar na especialização em Penal. Especializou-se em Imobiliário e nunca, ao longo destes anos, trabalhou em Penal por opção. 

E a paixão platónica pelo rapaz mais feio que alguma vez viram? Foi duro, desgastante e obrigou-me a trabalhar em conjunto com o anjo da guarda do tal rapaz, para lhe encontrarmos uma namorada e dessa forma esperar que Ela não se atrevesse a chegar perto. Para que tenham alguma noção, o meu colega ainda hoje se emociona quando relembrar o momento em que finalmente encontramos a tal namorada, e diz, entre lágrimas, que nunca conseguirá retribuir essa ajuda.

A lista é extensa e infinita. E ainda agora, enquanto vos escrevo, Ela está a tentar desviar-se do percurso. Contudo, contra tudo e contra todos (ou talvez só contra ela própria), continuo cá, firme e forte. Com 1,80 e corpo musculado. E totalmente disponível caso algum de vocês, caro leitores, pretender me contratar.

Tenho experiência nas mais variadas áreas, podem acreditar. E sucesso em tudo onde meti a mão. Basta olhar para Ela. Sou trabalhador e não desisto. Se não desisti dela, acreditem, não desistirei de vocês.

Hezalel, o verdadeiro Anjo da Guarda."

M.

16
Ago19

O meu anjo da guarda abandonou-me!

quatro de treta e um bebé

Hezalel, volta já aqui! Agora!! Não te volto a chamar! Hezalel!!!!!!

Hezalel é o meu anjo da guarda.
Que ao fim de 30 anos decidiu fazer greve (não consigo evitar revirar os olhos ao dizer isto). Diz ele que está cansado e recebe pouco!

Pensava eu que a função dos anjos da guarda era igual à dos advogados estagiários, não remunerada, e que a gratidão, por si só, chegava. E se há coisa da qual ele não se pode queixar é de lhe ser, eterna e extremamente, grata.

Recordo o meu querido anjo da guarda com um grande sorriso no rosto... Já fomos tão felizes juntos! Eu a tentar fazer asneira e ele a impedir. Eu a tentar alguns desvios e ele, teimoso, a empurrar para o caminho certo. Por diversas vezes, não tinha qualquer a intenção de me desviar do percurso, mas dava-me algum gozo ouvir o suspiro do "outra vez?!", ver o encher do peito como se fosse buscar energia aos confins do mundo, e a corrida rápida, tipo Duck Dodgers, para se colocar à minha frente com o dedo esticado a dizer "go out".

Foi com ele que aprendi a dizer os meus "nãos" e o "põe-te a andar".

É um anãozinho (bem pequenino), gordinho, de cabelo encaracolado, loiro, olhos claros e nariz empinado. Anda sempre de fraldas de pano, com alfinete dourado, e teima em carregar nas costas umas asas daquelas que se compram em qualquer loja de fantasias na altura do carnaval. Anda como se desfilasse, de peito feito e barriga encolhida, aparentando que mantém a respiração suspensa durante todo o tempo. Sempre o achei ridículo. Mas ao mesmo tempo um fofo, daqueles que apetece apertar as bochechas só para que o peito baixe, a barriga saia e a respiração retome a normalidade.

Apesar de todas as nossas desavenças e pensamentos opostos, sempre gostei muito dele. E sempre fomos um só.

Mas agora, sem dó nem piedade, decidiu abandonar-me assim. Sem mais. Argumentando que se quero continuar a fazer asneira, para o fazer com força, e para não contar com ele. Que está cansado e que não lhe pago para isso?!

Como assim cansado? Eu nem dou assim tanto trabalho!

Está a fazer birra! É isso, está simplesmente a fazer birra!

Hezalel, já não tens idade para birras! Volta imediatamente. Por favorzinho!!!

 

M.

18
Jul19

Aos colegas de trabalho.

quatro de treta e um bebé

Com a passagem dos anos, e a evolução inerente, substituímos os colegas da escola, aqueles que eram também os nossos amigos e com quem passávamos a maior parte do nosso tempo, pelos colegas de trabalho.

Na altura, e no geral, o que nos fazia levantar todos os dias para ir para a escola eram as pessoas. As conversas, os jogos de futebol nos intervalos, as risadas nos momentos mais inoportunos. A nossa vida desenrolava-se, essencialmente, durante aquele tempo, com aquelas pessoas. Com quem crescemos, aprendemos e nos moldamos. Talvez nunca tenhamos pensado nisso (eu, pelo menos, só estou a pensar agora) mas hoje, somos o que somos, seguimos os caminhos que seguimos, muito graças aos nossos colegas de escola e àquilo que vivemos com eles ou por causa deles. E eles a mesma coisa. São o que são, também, por nossa causa. E pela forma como interviemos nas suas vidas.

Agora, já mais crescidos e com perspetivas sobre as relações pessoais bem diferentes das da altura, passamos a maior parte do nosso tempo com os colegas de trabalho. E ao contrário daquela época, ninguém fica feliz por acordar todos os dias e ir para um espaço onde estão os nossos colegas de trabalho. Exceto eu!!

Ao contrário dos tempos da escola, já não é no local de trabalho que estão os nossos amigos. Ou até estão, pelo menos alguns, mas não é lá que nos gostamos de encontrar. Até porque o pão com chocolate e o leite achocolatado foram substituídos por minis e amendoins, e ainda não conseguimos perceber o porquê de essas duas coisas não estarem disponíveis nas máquinas de vending no nosso local de trabalho.

Sem dispersar, uma vez que as minis e os amendoins já me levaram os pensamentos para outros lados, eu devo ser das poucas pessoas (se não a única) que continua a acordar todos os dias com vontade de ir para o meu local de trabalho por causa das pessoas. Sou, sem dúvida, uma privilegiada por privar, todos os dias, com seres tão... puros.

Preocupam-se comigo como ninguém. Zelam pela minha vida. Acrescentam-lhe a pitada de sal que ela precisa. Agitam-na.
Arranjam-me namorado quando percebem que é isso que me faz falta e terminam essa mesma relação quando percebem que me está a fazer mal. Mandam-me de férias para aliviar as ideias e mudam-me de casa porque entendem que a minha já não corresponde às minhas necessidades, que eles tão bem conhecem. Arranjam-me encontros e mantém-se ao longe a assistir, apenas para se certificarem que tudo corre bem. Garantem que chego a horas ao trabalho e confirmam que não me atraso na hora de saída. E tudo isso sem eu saber. Para que não me sinta em dívida,  para que não sinta a obrigação de retribuir.

Há alturas em que me pergunto se conseguem ter tempo para gerir a vida deles, que, imagino eu, também precisa de algum cuidado. Chego a sentir remorsos por não conseguir responder na mesma medida, de retribuir da mesma forma. E sinto ainda mais remorsos, por saber que mesmo que tentasse não conseguiria, sequer, chegar perto daquilo que fazem por mim. Dou por mim, todas as noites, antes de adormecer, a agradecer a Deus (e logo eu que nem acredito em Deus!) o facto de os ter colocado na minha vida. E a pedir para colocar alguém como eles na vida deles próprios.

Depois tenho os outros. Os que para além de colegas de trabalho são também meus amigos. Com quem passo imenso tempo, principalmente se na nossa companhia estiver a tal mini e os amendoins. Que me convidam para jantar em casa deles, que fazem questão de me ter nos momentos importantes como aquele em que decidem dizer "sim" ao "felizes para sempre", ou me ligam em euforia a dizer que vão ser pais. Com quem passo horas a fio a falar da minha vida, ou da deles, que conhecem os meus medos e os meus sonhos. Que sabem os meus segredos e partilham comigo os deles. Os que não me importo de fazer quilómetros só para estar à conversa, para rir nos momentos mais inoportunos ou jogar futebol nos intervalos.


É pá! Mas estes... estes não chegam nem aos calcanhares dos outros. E que pena!

M.

24
Jun19

Tinder, prazer!

quatro de treta e um bebé

Maria. Maria Crespo Martins. Não Maria Crespo, está incompleto, falta qualquer coisa. Nem Maria Martins, há muitas. 30 anos, mas ninguém me dá mais de 20. Consigo aparentar 5 anos, quando me oferecem um presente envolto em papel de embrulho, e até 2 anos, nos dias da rabugice do sono. Cabelo loiro escuro, segundo diz a cabeleireira. Desculpem, cabelo loiro escuro, assim o diz a Art Director de um hairstlyling qualquer. E olhos azul camuflado. Odeio favas, herdei da mãe, e sushi, porque tal como as favas não continuo a insistir comer até gostar.

Seguindo os conselhos sábios de uma amiga, que reitera, com alguma frequência, que não devemos negar, à partida, uma ciência que desconhecemos, decidi descarregar a aplicação Tinder e apresentar-me da forma supra a quem tem a sorte de me localizar dentro da área geográfica pré-estabelecida. De forma curta e clara. Para que não hajam dúvidas e não se sintam enganados. E para que não cometam erros irreversíveis logo no primeiro encontro.

Seria pouco provável que num primeiro encontro o candidato a uma bela amizade me levasse a jantar a um restaurante japonês, com um presente dentro de um saco do continente, e me dissesse que tenho um cabelo castanho super hidratado, e uns olhos negros brilhantes? Nunca fiando.

A quem começou a revirar os olhos no momento que leu "Tinder" já pode parar os olhos no centro e ler com atenção. Espantem-se: O Tinder não é assim tão diferente do Facebook ou Instagram! Na verdade, fiquei com a sensação que é só a versão 0.0.1 dessas redes sociais.

Simples. Fundo branco e traços finos. Tudo é feito em 3, talvez porque o seu criador acreditava na perfeição associada ao número. O ecrã dividi-se em 3 partes: a superior, com 3 separadores (acesso ao perfil pessoal, acesso aos perfis dos candidatos e acesso à caixa de mensagens), a central que permite vislumbrar a foto, o nome e a idade dos candidatos, e a inferior, com 3 botões: nope, superlike e like.

A partir daqui é só deslizar o dedo.

Aproveitei as férias no Algarve para explorar esse mundo, no verdadeiro sentido da palavra. Em menos de 24 horas, tinha mais de 99 likes, 5 matchs, e um encontro em Albufeira. C'um caraças, o Tinder funciona mesmo!

Durante os 3 dias seguintes o Tinder foi divertido. Foi realmente divertido.
E, ao contrário do que as mentes preconceituosas por aí espalham, existe de tudo. Pessoas normais e outras normais à maneira delas.
Há quem ache que a sua cara metade deve conhecer, antes de tudo, os seus atributos fisicos, e quem ache que deve conhecer primeiro o cão. Há quem leve à letra aquela velha máxima de que o tamanho é que importa, e outros pretendem conquistar com um boxers com notas de quinhentos euros.
Há pessoas simpáticas e verdadeiramente afáveis. E há os outros. Na verdade, nada de novo. Exceto ter chegado à conclusão que ando a dormir na rua. Garanto-vos que na minha área geográfica há gente verdadeiramente interessante. Isso, verdadeiramente interessante.

Infelizmente o entusiasmo passou-me rápido e, hoje, o Tinder dá-me sono. Abro a aplicação e em menos de dois minutos estou a piscar os olhos. Mas o problema não é da aplicação, é meu! Quem me manda ir para lá à procura do Tiago Violas?

Já agora, para os curiosos, o encontro correu bem. Ele tinha boa alma.

M.

02
Mai19

O amor e a fotografia.

quatro de treta e um bebé

A fotografia sempre assumiu um lugar importante na vida das pessoas.

 

Se recorrermos aos nossos primórdios, facilmente percebemos que a fotografia está presente desde sempre. Não da forma que a conhecemos agora, é certo. Mas estava lá. Recorde-se, a título de exemplo, as pinturas rupestres, que nada mais são do que “fotografias” dos momentos vividos na época e que os nossos antepassados perpetuaram no tempo. É graças a elas, que hoje temos uma vaga ideia do que faziam na altura. Excelentes caçadores, quiseram fazer-nos crer, mas péssimos "fotógrafos", conseguimos concluir.

 

Antes, como agora, preocupámo-nos em registar aquilo que entendemos como importante, o que queremos que fique para o futuro. Há uns dias, um amigo escrevia na sua página do facebook, que "um dia seremos apenas o retrato na estante de alguém". Querem prova maior da importância da fotografia? 

Hoje diz-se que a fotografia se tornou vulgar. Efetivamente, constatamos com alguma frequência que as pessoas se preocupam mais em captar os momentos do que em vivê-los. Todavia, entendo que isso não retira a importância da fotografia. Eu diria antes que a fotografia se tornou mais fácil. Mas não menos importante.

 

Fotografar é uma arte. E como todas as artes exige que haja amor. Não há arte sem amor. Pode haver qualquer coisa. Qualquer tentativa. Rasca. Banal. Sem jeito. Assim, fotografar exige amor. À fotografia, ou ao que se fotográfa. E só isso nos faz explorar. No verdadeiro sentido da palavra.

 

Recentemente, estive de férias em Barcelona. Poderia partilhar convosco as fotos, para que percebessem melhor o meu devaneio acerca deste tema, mas não vos vou expor a isso. Nem a vocês, nem a mim. Adianto apenas que não se aproveita uma. Ponderei sobre os porquês (afinal, a modelo é top) e conclui que não podes ir de férias com qualquer pessoa e esperar que tire fotos para colocar na estante, sem que alguém visite a casa e não se ria (como fazemos na casa dos amigos quando vemos aquelas fotos de criança). Já pensaram porquê que a imagem de todos os reis é feia, mas a imagem de jesus cristo é bonita?

 

A partir de agora só viajo com pessoas que cumpram, pelo menos, um desses dois requisitos: ou amam a fotografia ou amam a minha pessoa. Com preferência, a primeira hipótese. Já que segunda pode facilmente induzi-los em erros, e acharem que está sempre tudo bem. Afinal... o amor, por vezes, faz ver tudo bonito. 

 

Felizmente a minha próxima viagem é com a Catarina, uma grande amiga minha. Que ama a fotografia... e também me ama a mim. De certeza!

 

M.

 

16
Abr19

Que se f*da.

quatro de treta e um bebé

Domingos à noite são sinónimos de livros, filmes e/ou séries. Sem exceção. A depressão pré-segunda-feira, obriga-me a dedicar a coisas que gosto e que não faço, normalmente por falta de tempo. Coisas essas que deveria ter começado a fazer no sábado, às 9h, e que acabei por ocupar com outras coisas, a maior parte delas sem jeito nenhum (na verdade, nunca sem jeito nenhum, porque não fazer nada e dormir até às 15h tem todo o jeito, é essencial e sabe tãooooo bem). Na verdade, os domingos à noite funcionam como forma de recuperar o tempo perdido do fim de semana, de forma calma e tranquila para que passe devagar, m-u-i-t-o-d-e-v-a-g-a-r, como se conseguisse atrasar a chegada do dia seguinte. Acaba por ter o efeito contrário. Desde logo porque quando estamos a fazer algo que gostamos o tempo parece que voa. E se esse algo que gostamos é feito a um domingo à noite, já foi!

 

Este domingo, dediquei-me a um livro que já me tinha sido oferecido há algum tempo:

 

“A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da”.

 

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Não deixa de ser irónico que esse livro me tenha sido oferecido pela pessoa que mais me fez conjugar o dito verbo, das mais diversas formas possíveis e imaginárias, durante o último ano. Talvez eu não estivesse a ser subtil sempre que o pronunciei e como tal a pessoa achou por bem deixar-me  a dica. Está registado.

 

Dizia-vos eu então, que ontem comecei a ler esse livro. Ainda não tenho uma opinião formada sobre o mesmo, já que apenas li algumas dezenas de páginas. Todavia, desde a primeira página que me encontro em longos debates com o Autor. Se bem que depois de cada contra-argumento que utilizo penso... "que se f*da". Acho que já aprendi alguma coisa. A relevar... depois de falar. Bem, talvez não tenha aprendido nada. Oh! Que se f*da!

 

Autor: "Nós só procuramos aquilo que não temos."

M.: Efetivamente só costumo procurar aquilo que não tenho. Ou porque perdi, ou porque não me lembro onde guardei, mas o mais provável é que esteja a procura de algo que alguém tirou do sitio sem me avisar. Quando não encontro, encolho os olhos e faço uma de duas coisas:

1- Mamãaaaaa, viste as minhas sapatilhas?

2- "que se f*da, quando a minha mãe chegar pergunto-lhe onde as escondeu".

 

Autor: "Achamos que a felicidade consiste no alcançar aquilo que idealizamos e esse é o nosso grande erro, a felicidade consiste na busca, no caminho até alcançar."

M.: Sinto que a minha vida foi um erro. Fui tão feliz quando alcancei coisas que idealizei e nada feliz em alguns dos percursos que tive que percorrer até lá chegar. Afinal fiz tudo ao contrário, fui feliz nos momentos errados. Penitencio-me por isso... mas que se f*da.

 

Autor: "A felicidade não é não ter problemas, é resolver os problemas que temos."

M.: Se tenho um problema e o resolvo, fico sem ele. E se fico feliz com a resolução é porque fico feliz sem o referido problema. Então a felicidade é ter problemas resolvidos. Se estão resolvidos já não são um problema. Certo? Bom, "que se f*da".

 

Autor: "O desejo de termos experiências positivas é, por si só, uma experiência negativa, e paradoxalmente, o facto de aceitarmos experiências negativas, é, por sua vez, uma experiência positiva."

M.: Diria que o desejo ter experiências negativas ao invés de experiências positivas está ligado a escolhas de índole e gosto pessoal, que se podem traduzir (ou não) na prática do sadomasoquismo. E se assim for, se optarmos pela prática do sadomasoquismo, parece-me que esta frase fará todo o sentido. Caso contrário... que se f*da.

 

Subtileza nunca foi o meu forte. Prometo que trabalharei nessa parte daqui para a frente. Porque saber dizer "que se f*da", eu já sei.

 

O ser humano é demasiado confuso. Complica. É estranho. Atrai problemas. Mas depois há os que abusam. Que se f*da.

 

M.

 

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