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quatro de treta e um bebé!

"Não me digam que concordam comigo! Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que estou errado." – Oscar Wilde

quatro de treta e um bebé!

"Não me digam que concordam comigo! Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que estou errado." – Oscar Wilde

25
Mar20

Assim que tiver tempo, prometo.

quatro de treta e um bebé
Há uns meses atrás a F. escrevia-nos sobre o tempo, sobre como "ele" passa e nem nos apercebemos disso. Escrevia-nos sobre como passamos o tempo a desejar que chegue um determinado dia e quando esse dia chega, automaticamente passamos a desejar um outro. E está tão certa!

Nunca arranjamos tempo para estar, para usufruir, para desfrutar. Ou porque temos muito trabalho, ou porque estamos cansados ou porque hoje não dá e amanhã não apetece. A família, os amigos, acabam por se encaixar nas horas vagas que não existem, de uma vida sempre agitada, com tempo contado para coisa nenhuma, coisa essa que é sempre prioritária. Damo-nos conta que passamos mais tempo com pessoas que não nos dizem nada ou que nos dizem muito pouco, com pessoas mesquinhas, de quem nem gostamos, ou até a fazer algo que não nos satisfaz. Porque para isso há tempo, porque isso é o que tem que ser, a isso somos obrigados. E fazemos, e vamos, e (sobre)vivemos aquilo que chamamos de vida, sonhando com um determinado dia, momento ou pessoas.

De amanhã não passa. No próximo fim de semana é que é. No próximo ano não há desculpas. Nas próximas férias, da próxima vez, assim que tiver tempo, na próxima encarnação. Fica para a próxima, prometo!

E de repente, chega um tal vírus que nos obriga a ter tempo. Um tempo imposto. Que nos condena à prisão, sem direito a visitas e que o único contacto permitido é através de videochamadas. E de repente, todos temos tempo. Através de uma pequena câmara, arranjamos formas de tomar café ou jantar com as pessoas que nos são queridas. Arranjamos tempo para ir ao ginásio, jogar cartas ou, simplesmente, estar à conversa. Os filmes parece-nos aborrecidos, os livros cansativos, as redes sociais uma seca. Porque o que gostamos mesmo é de pessoas. De estar com pessoas. E foi preciso um tal vírus aparecer, para nos darmos conta disso mesmo. Um tal vírus que nos mudou as perspetivas e diz-se por aí, que assim que esse vírus nos abandonar, o mundo jamais será o mesmo. As relações pessoais jamais serão as mesmas.  

E de repente, esse tal vírus vai embora. Felizmente, voltaremos à nossa rotina diária. Aos trabalhos que nos tiram tempo e energia, às coisas que nem gostamos assim tanto, mas que tem que ser. E as prioridades que durante estes tempos de quarentena estabelecemos, desaparecerão novamente. Ficarão para mais tarde. Para outra altura. Para quando houver tempo

Diz-se, por aí, que esse tal vírus veio mudar as pessoas. Diz-se por aí e diz-se mal. 

Durante a estadia desse tal vírus, as pessoas fizeram aquilo que fazem sempre. Esperar por um dia que não aquele. E quando esse dia chegar, esperarão por outro. E outro. E outro. Até que não hajam mais dias por que esperar. 

 

M.
10
Fev20

Serviço Público - com a participação especial de Paola Solarevicz

quatro de treta e um bebé

Um agradecimento especial às pessoas com mau gosto. Sem elas este artigo não teria sido possível.

 

Há uns tempos, escrevia-vos sobre aquelas coisas que me impediam de apaixonar por um homem, por mais lindo que ele fosse. Falava-vos da altura, da voz, da data de nascimento e até da bagagem. Por mero lapso, não referi o mau gosto. Mas hoje escrevo-vos para corrigir esse lapso, e fazer “serviço público”. Porque entendo que ao contrário da altura, da voz, da data de nascimento ou da bagagem, o mau gosto pode moldar-se, corrigir-se, educar-se. Ou pelo menos quero acreditar que sim.  

 

Numa “conversa de café” com a Paola Solarevicz, uma verdadeira entendida no tema, falávamos do mau gosto. Do mau gosto em geral, embora nos focássemos, essencialmente, no mau gosto dos homens. Da falta de noção ou de espelho. Falávamos da surpresa, do impacto, do bater de frente com alguém com mau gosto e da sensação de “facada no peito” quando nos cruzamos com homem que tem tanto de bonito como de mau gosto.

Dizia-me ela que adorava homens com bom gosto, que se sabem vestir e, mais ainda, sabem adaptar o que vestir à ocasião. Por sua vez, quando se cruzava com homens vestidos como autênticas “árvores de natal” não consegue evitar o beicinho a tremer, a pupila a dilatar e a lágrima a espreitar no canto do olho, pronta para verter, de tamanha desilusão com o mundo.

Poluição visual. Dizia ela que se tratava de uma poluição visual. E devia ser crime, da mesma forma que a poluição ambiental o é.

Assim, e de forma a contribuir para um mundo melhor, deixo-vos infra as dicas de Paola Solarevicz, sobre o que não vestir, nem em casa.

 

Manga cava preta, com calças de ganga e sapatilhas básicas.

Acrescento que manga cava só por si, nunca! Não é para usar, em situação nenhuma, com coisa nenhuma. Nem com calças de ganga, nem com outra coisa qualquer. Nem na rua, no passeio de domingo a tarde, ou no ginásio. Exceciona-se a utilização para prática de modalidades desportivas como o basquetebol ou o voleibol de praia. Mas como referido, apenas e só nessas duas modalidades.

Roupas justas

Jamais! A não ser que vá participar numa prova de danças de salão ou salto em trampolim, é fugir das roupas justas a sete pés. Cruzar-nos com um homem que decidiu sair de casa com a roupa do filho mais novo, não é de todo atrativo.

Calças “tomara que caia”

Tipo os tops das mulheres, mas numa versão masculina. Traduz-se naquela peça de roupa, que deveria estar na cintura, mas que, por se ter comprado o número acima, estão constantemente a ameaçar cair. A mais recente versão deste modelo, implica que as mesmas sejam justas em baixo, imaginamos nós que seja para que, caso caiam, não fiquem pelo caminho.

Camisa aberta até ao umbigo

Ou até um pouco mais acima. Se não aperta mais, não é porque não é para apertar, é porque o tamanho não era esse. A situação piora se tiverem o fio no pescoço.

Fatos não cintados

Aquela máxima de que um homem compra um fato uma vez e depois usa o mesmo fato para sempre, porque os fatos são todos iguais e nas fotografias de casamento não se vai notar já não se aplica. Os anos passaram, os fatos mudaram, os cortes também. Usar umas calças de fato largas em baixo? Não. Deitem fora.

 

Nas palavras sábias de Paola Solarevicz, “quando os olhos não sabem para onde olhar, significa que tudo está mal ali”. A mesma, refere ainda que “não há mal nenhum em evidenciar o corpo, desde que o mau gosto não se evidencie primeiro”. Dito isto, é um facto: a elegância conquista. E a falta dela também…

 

M.

 

09
Dez19

O lado de fora.

quatro de treta e um bebé

O coração acelera e o nervosismo fala mais alto. Num ato irrefletido olho para as minhas mãos que balançam sem parar. Sem que me aperceba disso um braço cruza e o outro vai à boca como se fosse roer as unhas. E eu que nem roo as unhas. Apoio o corpo numa perna e depois noutra. Respiro fundo. Junto as duas mãos como se pedisse ajuda divina. E eu que nem acredito no divino. Ando para um lado. Depois para o outro. Dou por mim a fletir as pernas e volto a colocar-me direita. Pulo e controlo-me. Volto a dar um salto. E depois outro. E paro. Respiro fundo. E recomeço. Sem que dê por isso. Mais uma vez. E outra e outra e mais outra. Até que o apito final se faz soar no pavilhão. E o ritmo cardíaco tenta voltar ao normal, a respiração acalma e as mãos balançam cada vez menos. Não percebes como, nem porque. A adrenalina entrou em dose superior aquela que entra quando estás lá. E saí de forma mais lenta. 

Foram, quase, duas horas a jogar na pior das posições. A mais difícil. A do lado de fora.

M.

10
Out19

Direito de Resposta de Hezalel ao texto "O meu anjo da guarda abandonou-me!"

quatro de treta e um bebé

"Tem direito de resposta nas publicações periódicas qualquer pessoa singular ou coletiva, organização, serviço ou organismo público, bem como o titular de qualquer órgão ou responsável por estabelecimento público, que tiver sido objeto de referências, ainda que indiretas, que possam afetar a sua reputação e boa fama", art. 24.º, n.º 1 da Lei da Imprensa (Lei 2/99, de 13 de janeiro).

Era desta forma que começava a carta que me foi dirigida, e que infra transcrevo, enviada pelo meu querido anjo da guarda, exigindo a publicação da mesma neste blog, que até então tinha algum nível nos artigos publicados. 

Li e reli o artigo supra citado. Acho que conseguia arranjar justificação plausível para não o fazer. Desde logo, e sem entrar nos pormenores da reputação ou boa fama, o meu anjo da guarda não se trata de uma pessoa, organização, serviço ou organismo público, nem me parece ser titular de qualquer órgão ou responsável por estabelecimento público. No máximo será responsável por mim, função que desempenha, digamos, com algum desdém! Mas enfim! Revirando os olhos, enquanto encolho os ombros,  e sob protesto, decidi ceder ao seu "pedido" e acreditar que, desta forma, a partir de hoje, as coisas mudam e as paz prevalece entre nós. Torçamos por isso. Que esta exposição pública não seja em vão. Ou que, pelo menos, me permita pedir uma indemnização...por danos morais.

"Queridos leitores, 

Ao contrário do que foi aqui publicado, a 16 de agosto de 2019, durante estes quase 31 anos (sim, Ela diz 30, mas são quase 31) sempre exerci as minhas funções com total empenho e dedicação. Efetivamente estou cansado, (afinal quem é que trabalha 31 anos, sem paragens, e não se cansa? Nem os anjos!) mas nunca o meu cansaço foi sinónimo de desleixo. 

Dou por mim, por vezes, a tentar perceber que mal terei feito numa outra vida, para que me tivesse calhado Esta pessoa na rifa. Quando levanto esta questão em grupo, é-me respondido, cada vez com menos convicção, que os grandes desafios são entregues apenas àqueles com capacidades para os superar. Cliché! Mas ainda assim, acreditando que merecia melhor, aceitei o desafio e em momento algum me desligo da Pessoa ingrata de quem sou o anjo da guarda. Se bem que mesmo que tentasse, acho que a campainha do perigo tocava. 

Durante estes 31 anos, e por mais difícil que seja, nunca A abandonei. Recordo-me, por exemplo, de quando concorreu à faculdade. Andava numa época em que só via séries criminais, e no momento da candidatura, deixou Direito e Coimbra em 2.º opção e concorreu para Ciências Criminais, no Porto. Acham que foi fácil, retirar-lhe uma décima da média para que não entrasse em Ciências Criminais? Mesmo assim, teimosa, entrou em Direito a pensar na especialização em Penal. Especializou-se em Imobiliário e nunca, ao longo destes anos, trabalhou em Penal por opção. 

E a paixão platónica pelo rapaz mais feio que alguma vez viram? Foi duro, desgastante e obrigou-me a trabalhar em conjunto com o anjo da guarda do tal rapaz, para lhe encontrarmos uma namorada e dessa forma esperar que Ela não se atrevesse a chegar perto. Para que tenham alguma noção, o meu colega ainda hoje se emociona quando relembrar o momento em que finalmente encontramos a tal namorada, e diz, entre lágrimas, que nunca conseguirá retribuir essa ajuda.

A lista é extensa e infinita. E ainda agora, enquanto vos escrevo, Ela está a tentar desviar-se do percurso. Contudo, contra tudo e contra todos (ou talvez só contra ela própria), continuo cá, firme e forte. Com 1,80 e corpo musculado. E totalmente disponível caso algum de vocês, caro leitores, pretender me contratar.

Tenho experiência nas mais variadas áreas, podem acreditar. E sucesso em tudo onde meti a mão. Basta olhar para Ela. Sou trabalhador e não desisto. Se não desisti dela, acreditem, não desistirei de vocês.

Hezalel, o verdadeiro Anjo da Guarda."

M.

16
Ago19

O meu anjo da guarda abandonou-me!

quatro de treta e um bebé

Hezalel, volta já aqui! Agora!! Não te volto a chamar! Hezalel!!!!!!

Hezalel é o meu anjo da guarda.
Que ao fim de 30 anos decidiu fazer greve (não consigo evitar revirar os olhos ao dizer isto). Diz ele que está cansado e recebe pouco!

Pensava eu que a função dos anjos da guarda era igual à dos advogados estagiários, não remunerada, e que a gratidão, por si só, chegava. E se há coisa da qual ele não se pode queixar é de lhe ser, eterna e extremamente, grata.

Recordo o meu querido anjo da guarda com um grande sorriso no rosto... Já fomos tão felizes juntos! Eu a tentar fazer asneira e ele a impedir. Eu a tentar alguns desvios e ele, teimoso, a empurrar para o caminho certo. Por diversas vezes, não tinha qualquer a intenção de me desviar do percurso, mas dava-me algum gozo ouvir o suspiro do "outra vez?!", ver o encher do peito como se fosse buscar energia aos confins do mundo, e a corrida rápida, tipo Duck Dodgers, para se colocar à minha frente com o dedo esticado a dizer "go out".

Foi com ele que aprendi a dizer os meus "nãos" e o "põe-te a andar".

É um anãozinho (bem pequenino), gordinho, de cabelo encaracolado, loiro, olhos claros e nariz empinado. Anda sempre de fraldas de pano, com alfinete dourado, e teima em carregar nas costas umas asas daquelas que se compram em qualquer loja de fantasias na altura do carnaval. Anda como se desfilasse, de peito feito e barriga encolhida, aparentando que mantém a respiração suspensa durante todo o tempo. Sempre o achei ridículo. Mas ao mesmo tempo um fofo, daqueles que apetece apertar as bochechas só para que o peito baixe, a barriga saia e a respiração retome a normalidade.

Apesar de todas as nossas desavenças e pensamentos opostos, sempre gostei muito dele. E sempre fomos um só.

Mas agora, sem dó nem piedade, decidiu abandonar-me assim. Sem mais. Argumentando que se quero continuar a fazer asneira, para o fazer com força, e para não contar com ele. Que está cansado e que não lhe pago para isso?!

Como assim cansado? Eu nem dou assim tanto trabalho!

Está a fazer birra! É isso, está simplesmente a fazer birra!

Hezalel, já não tens idade para birras! Volta imediatamente. Por favorzinho!!!

 

M.

18
Jul19

Aos colegas de trabalho.

quatro de treta e um bebé

Com a passagem dos anos, e a evolução inerente, substituímos os colegas da escola, aqueles que eram também os nossos amigos e com quem passávamos a maior parte do nosso tempo, pelos colegas de trabalho.

Na altura, e no geral, o que nos fazia levantar todos os dias para ir para a escola eram as pessoas. As conversas, os jogos de futebol nos intervalos, as risadas nos momentos mais inoportunos. A nossa vida desenrolava-se, essencialmente, durante aquele tempo, com aquelas pessoas. Com quem crescemos, aprendemos e nos moldamos. Talvez nunca tenhamos pensado nisso (eu, pelo menos, só estou a pensar agora) mas hoje, somos o que somos, seguimos os caminhos que seguimos, muito graças aos nossos colegas de escola e àquilo que vivemos com eles ou por causa deles. E eles a mesma coisa. São o que são, também, por nossa causa. E pela forma como interviemos nas suas vidas.

Agora, já mais crescidos e com perspetivas sobre as relações pessoais bem diferentes das da altura, passamos a maior parte do nosso tempo com os colegas de trabalho. E ao contrário daquela época, ninguém fica feliz por acordar todos os dias e ir para um espaço onde estão os nossos colegas de trabalho. Exceto eu!!

Ao contrário dos tempos da escola, já não é no local de trabalho que estão os nossos amigos. Ou até estão, pelo menos alguns, mas não é lá que nos gostamos de encontrar. Até porque o pão com chocolate e o leite achocolatado foram substituídos por minis e amendoins, e ainda não conseguimos perceber o porquê de essas duas coisas não estarem disponíveis nas máquinas de vending no nosso local de trabalho.

Sem dispersar, uma vez que as minis e os amendoins já me levaram os pensamentos para outros lados, eu devo ser das poucas pessoas (se não a única) que continua a acordar todos os dias com vontade de ir para o meu local de trabalho por causa das pessoas. Sou, sem dúvida, uma privilegiada por privar, todos os dias, com seres tão... puros.

Preocupam-se comigo como ninguém. Zelam pela minha vida. Acrescentam-lhe a pitada de sal que ela precisa. Agitam-na.
Arranjam-me namorado quando percebem que é isso que me faz falta e terminam essa mesma relação quando percebem que me está a fazer mal. Mandam-me de férias para aliviar as ideias e mudam-me de casa porque entendem que a minha já não corresponde às minhas necessidades, que eles tão bem conhecem. Arranjam-me encontros e mantém-se ao longe a assistir, apenas para se certificarem que tudo corre bem. Garantem que chego a horas ao trabalho e confirmam que não me atraso na hora de saída. E tudo isso sem eu saber. Para que não me sinta em dívida,  para que não sinta a obrigação de retribuir.

Há alturas em que me pergunto se conseguem ter tempo para gerir a vida deles, que, imagino eu, também precisa de algum cuidado. Chego a sentir remorsos por não conseguir responder na mesma medida, de retribuir da mesma forma. E sinto ainda mais remorsos, por saber que mesmo que tentasse não conseguiria, sequer, chegar perto daquilo que fazem por mim. Dou por mim, todas as noites, antes de adormecer, a agradecer a Deus (e logo eu que nem acredito em Deus!) o facto de os ter colocado na minha vida. E a pedir para colocar alguém como eles na vida deles próprios.

Depois tenho os outros. Os que para além de colegas de trabalho são também meus amigos. Com quem passo imenso tempo, principalmente se na nossa companhia estiver a tal mini e os amendoins. Que me convidam para jantar em casa deles, que fazem questão de me ter nos momentos importantes como aquele em que decidem dizer "sim" ao "felizes para sempre", ou me ligam em euforia a dizer que vão ser pais. Com quem passo horas a fio a falar da minha vida, ou da deles, que conhecem os meus medos e os meus sonhos. Que sabem os meus segredos e partilham comigo os deles. Os que não me importo de fazer quilómetros só para estar à conversa, para rir nos momentos mais inoportunos ou jogar futebol nos intervalos.


É pá! Mas estes... estes não chegam nem aos calcanhares dos outros. E que pena!

M.

22
Mai19

Furacão.

quatro de treta e um bebé

Pegou na mochila e colocou nas costas com o solavanco típico da criança de 5 anos que puxa o casaco que ficou preso nas alças. Encarou-o pela última vez. Sabia e queria que fosse assim, mas porquê que, naquele momento, ir embora não fazia qualquer sentido? Afastando os pensamentos que a invadiam inoportunamente, voltou-se e dirigiu-se à porta. Sem olhar para trás. Respirou fundo, enquanto levantava a cabeça, e empinando o nariz deu início ao último passo. Sabia que quando o fizesse, quando pousasse o pé no chão, era de vez. E isso assustava-a.

Com certezas, mas sem convicções, deu aquele passo. E a seguir o outro e o outro e o outro. Dirigiu-se ao lugar 29A, e sentou-se. Levou as mãos de encontro à cara enquanto o turbilhão de ideias tentava também ele ocupar o seu devido lugar. Já está, pensou! Havia um aperto no peito. Uma vontade de voltar, de fazer tudo de novo. Começaram a ouvir-se gritos ensurdecedores que diziam para se levantar, para ir, para fazer, para recomeçar... O corpo não respondia. Não mexia. E os gritos ensurdecedores foram ficando sem voz. Persistentes, esforçavam-se para se fazerem ouvir. Ao longe, cada vez mais longe. O corpo, esse, continuou impávido e sereno.

O avião partiu. Em jeito de alívio, voltou a levantar a cabeça e encostar-se para trás no banco. Respirou fundo, mais uma vez.

Porra!

Apercebera-se que acabara de passar um furacão na sua vida. Chegou de repente. Depois daquele dia de sol, onde nada fazia prever que as poucas nuvens escuras que começaram a preencher o céu causariam tamanho estrago. Fazendo jus ao nome, levou tudo na frente e foi deixando um rasto ao longo do caminho. Por fim, perdeu a força e desapareceu. Da mesma forma que chegou. Devagar, mas com tudo.

Depois da tempestade passar, o sol volta sempre a raiar. E voltou. Mas às vezes ainda pensa e se tivesse olhado para trás?

 

M.

16
Abr19

Que se f*da.

quatro de treta e um bebé

Domingos à noite são sinónimos de livros, filmes e/ou séries. Sem exceção. A depressão pré-segunda-feira, obriga-me a dedicar a coisas que gosto e que não faço, normalmente por falta de tempo. Coisas essas que deveria ter começado a fazer no sábado, às 9h, e que acabei por ocupar com outras coisas, a maior parte delas sem jeito nenhum (na verdade, nunca sem jeito nenhum, porque não fazer nada e dormir até às 15h tem todo o jeito, é essencial e sabe tãooooo bem). Na verdade, os domingos à noite funcionam como forma de recuperar o tempo perdido do fim de semana, de forma calma e tranquila para que passe devagar, m-u-i-t-o-d-e-v-a-g-a-r, como se conseguisse atrasar a chegada do dia seguinte. Acaba por ter o efeito contrário. Desde logo porque quando estamos a fazer algo que gostamos o tempo parece que voa. E se esse algo que gostamos é feito a um domingo à noite, já foi!

 

Este domingo, dediquei-me a um livro que já me tinha sido oferecido há algum tempo:

 

“A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da”.

 

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Não deixa de ser irónico que esse livro me tenha sido oferecido pela pessoa que mais me fez conjugar o dito verbo, das mais diversas formas possíveis e imaginárias, durante o último ano. Talvez eu não estivesse a ser subtil sempre que o pronunciei e como tal a pessoa achou por bem deixar-me  a dica. Está registado.

 

Dizia-vos eu então, que ontem comecei a ler esse livro. Ainda não tenho uma opinião formada sobre o mesmo, já que apenas li algumas dezenas de páginas. Todavia, desde a primeira página que me encontro em longos debates com o Autor. Se bem que depois de cada contra-argumento que utilizo penso... "que se f*da". Acho que já aprendi alguma coisa. A relevar... depois de falar. Bem, talvez não tenha aprendido nada. Oh! Que se f*da!

 

Autor: "Nós só procuramos aquilo que não temos."

M.: Efetivamente só costumo procurar aquilo que não tenho. Ou porque perdi, ou porque não me lembro onde guardei, mas o mais provável é que esteja a procura de algo que alguém tirou do sitio sem me avisar. Quando não encontro, encolho os olhos e faço uma de duas coisas:

1- Mamãaaaaa, viste as minhas sapatilhas?

2- "que se f*da, quando a minha mãe chegar pergunto-lhe onde as escondeu".

 

Autor: "Achamos que a felicidade consiste no alcançar aquilo que idealizamos e esse é o nosso grande erro, a felicidade consiste na busca, no caminho até alcançar."

M.: Sinto que a minha vida foi um erro. Fui tão feliz quando alcancei coisas que idealizei e nada feliz em alguns dos percursos que tive que percorrer até lá chegar. Afinal fiz tudo ao contrário, fui feliz nos momentos errados. Penitencio-me por isso... mas que se f*da.

 

Autor: "A felicidade não é não ter problemas, é resolver os problemas que temos."

M.: Se tenho um problema e o resolvo, fico sem ele. E se fico feliz com a resolução é porque fico feliz sem o referido problema. Então a felicidade é ter problemas resolvidos. Se estão resolvidos já não são um problema. Certo? Bom, "que se f*da".

 

Autor: "O desejo de termos experiências positivas é, por si só, uma experiência negativa, e paradoxalmente, o facto de aceitarmos experiências negativas, é, por sua vez, uma experiência positiva."

M.: Diria que o desejo ter experiências negativas ao invés de experiências positivas está ligado a escolhas de índole e gosto pessoal, que se podem traduzir (ou não) na prática do sadomasoquismo. E se assim for, se optarmos pela prática do sadomasoquismo, parece-me que esta frase fará todo o sentido. Caso contrário... que se f*da.

 

Subtileza nunca foi o meu forte. Prometo que trabalharei nessa parte daqui para a frente. Porque saber dizer "que se f*da", eu já sei.

 

O ser humano é demasiado confuso. Complica. É estranho. Atrai problemas. Mas depois há os que abusam. Que se f*da.

 

M.

 

01
Abr19

esquisitices.

quatro de treta e um bebé

Há muitos anos atrás (oh meu deus, já tenho muitos anos atrás!) tive uma paixão platónica que, também ela, durou alguns anos. Talvez andasse no 7.º ou 8.º ano e ele no 11.º ou 12.º. Como uma verdadeira paixão platónica, ele nunca soube. Ninguém soube. Nunca tínhamos falado e apenas o via ao longe. Como sabemos, a vida dá voltas e o destino é traiçoeiro. Conheci-o quando já estava na faculdade, por acaso, num daqueles típicos jantares de Coimbra. A paixão platónica ainda existia. Até que ele abriu a boca para falar para mim... e a paixão morreu!

 

Um sorriso, um olhar, o tom de voz. As mãos, as conversas ou a gargalhada. Todos temos algo que se destaca na pessoa que nos cativou e por quem nos apaixonamos. Arrisco-me a dizer que cada um de vocês saberá dizer uma, ou várias coisas, acerca da pessoa por quem nutrem sentimentos.

 

Saberão responder de igual modo acerca daquilo que vos afastou, por completo e à primeira vista (ou momento) de determinada pessoa? Aquela característica que não sendo má, ou não a tornando numa pessoa má, que não tendo a pessoa culpa, vos fez por um ponto final ainda antes do início da frase?

 

Há uns tempos, em conversa com uma amiga, dizia-me ela que no programa do “O Carro do Amor”, uma das candidatas deu sinal vermelho ao par simplesmente porque ele era mais baixo do que ela. E que apesar de toda a cumplicidade que existiu entre os dois desde o primeiro momento, havia algo do qual a candidata não se conseguia abstrair... a altura.

 

Divagamos sobre o tema e concluímos que ambas teríamos feito a mesma coisa. Talvez não o admitíssemos na TV. Talvez não disséssemos à pessoa. Mas saberíamos que era isso que nos estava a impedir de avançar.

 

Não que tenha passado pela experiência (ou se passei nem me apercebi de tão automático que foi o bloqueio), mas quase que garanto que jamais me apaixonaria por alguém mais baixo do que eu. Por muito que tivesse “tudo o resto”. É um facto: ser mais baixo colocaria logo, só por si, o sinal vermelho. O ponto final antes da frase. Mas podíamos ser amigos para sempre.

 

Dei pelo meu pensamento a divagar sobre aquelas coisas que ativariam o sinal vermelho. E concluí que até tenho algumas.

 

A voz. Capaz de destruir uma paixão platónica de anos. E me faz fazer questão de falar com as possíveis paixões platónicas que surgem.

 

A data de nascimento com um número igual ou superior a 1993. (Tenho que partilhar convosco que primeiro escrevi 1998, apaguei e escrevi, 1995 e voltei a apagar e escrevi, finalmente, 1993. Ainda voltei a apagar com a intenção de colocar 1991, mas voltei a escrever um 3. Não estou certa disto. Mas prefiro manter a amplitude, pelo menos mental).

 

A bagagem...

 

Neste momento, tenho aqueles que me são mais próximos a revirar os olhos e a dizer em voz alta (porque já não conseguem controlar o som): “mas ainda há alguém que acredite que ela não vai ser solteira a vida toda?”.

 

Calma! Ainda há esperança no Tinder!

 

M.

18
Fev19

Indefinição.

quatro de treta e um bebé
Acredito que se tenham cruzado por diversas vezes.
Foram passando um por um lado, outro pelo outro. Passeios diferentes, quiçá a meros centímetros de distância em que apenas as pessoas pelo meio impediram que os olhos se tocassem.
E não tocaram.
 
Tiveram a oportunidade de se conhecer outras tantas vezes. Pessoas, lugares em comum.
E não aconteceu.
 
Aqui e ali, foram fintando o destino como se de um jogo do apanha se tratasse.
Talvez tentando evitar, ou à esperar do momento certo.
Bateram de frente quando menos esperavam. E podiam ter sido felizes para sempre.
Mas não foram.
 
Teimosos, resistiram uma e outra vez. Até que não resistiram mais. 
Sem querer, ou talvez não, aos poucos, e cada vez mais.
Mas não. E não.
 
E foram. Deixaram-se ir. Juntos. Mas com um pé atrás. Como se um talvez se tratasse.
Ingénuos, acreditavam que controlavam os sentimentos.
Mas não.
 
Aos empurrões e sobressaltos, aos recuos e suspensões, caíram na própria rede. Na rede de cada um.
Quiserem sair, trepar.
Quiseram deixar os Ses e os Talvez. Quiseram abandonar os Mas e os Nãos. Parar de resistir. Lutar.
Mas não...
Agora já não.
 
M.

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