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quatro de treta e um bebé!

"Não me digam que concordam comigo! Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que estou errado." – Oscar Wilde

quatro de treta e um bebé!

"Não me digam que concordam comigo! Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que estou errado." – Oscar Wilde

18
Mar19

conversas despreocupadas

quatro de treta e um bebé

- Já ouviste falar daqueles novos programas de TV, de domingo à noite?

- Sim.

- Achas aquilo normal?

- Não tenho nada contra.

- Como não tens nada contra?

- Porque haveria de ter?

- Achas normal o que se está ali a fazer? A forma como as mulheres estão a ser expostas, humilhadas. O estereótipo que se defende. É chocante. Não percebo como é que nos dias de hoje isso é permitido. E percebo, menos ainda, como é que as mulheres não se revoltam contra isso. Enquanto mulher sinto-me humilhada, rebaixada. Andamos anos e anos a lutar por direitos, ainda agora assinalámos o 8 de Março, esforçamo-nos pela igualdade, e depois é isto. Permite-se isto. E ainda se chocam com os casos de violência doméstica. Com as mortes. Com as decisões do juiz. É isto que se fomenta com este tipo de programas.

- Não estou a perceber...

- Como não estás a perceber? O que se passa naqueles programas é inadmissível, as mulheres são expostas, como se numa montra estivessem, e os homens (ou as mães, o que ainda é pior), escolhem aquelas que melhor se adequam aos seus caprichos (ou dos filhos).

- Hum. Estou a ver... Essas mulheres foram obrigadas a estar lá ou estão por vontade própria?

- Não!!! Aquilo é um concurso. Candidataram-se. Mas a questão não é essa...

- Então estás a dizer-me que foi opção delas estar ali e sabiam para o que iam?

- Sim, mas...

- Mas não podem escolher se colocar numa montra porque socialmente isso não é aceite? Isso não faz muito sentido.

- Não é nada disso. Elas podem escolher ser o que quiserem. Mas já viste aquilo que se fomenta? Que os homens escolhem as mulheres com base na imagem, se sabem cozinhar, se tem filhos, se já foram casadas... No fundo é como se aquilo fosse uma entrevista de emprego. Fazem 50 mil perguntas, ridículas, como, por exemplo, se é virgem, mas o que tem eles a ver com isso? Agora uma mulher para ser ideal tem que ser imaculada, saber cozinhar, cuidar da casa, planear ter filhos? O que é isto??

- E a mulher tem que ser ideal?

- Ah?

- Sim, tu disseste “a mulher para ser ideal tem que”. A minha pergunta é “tem que haver uma mulher ideal?”. Ideal para quê? O que é ser ideal?

- A questão não é essa. Naqueles programas fomenta-se um determinado estereótipo. Defende-se que a mulher tem que ser de determinada forma para ser escolhida.

- Ok, eu já percebi essa parte. Mas essas mulheres não estão lá porque querem?

- Estão, mas...

- E não tem o direito de escolher estar ali, daquela forma?

- O que? Fomentar estereótipos?

- Então vamos por partes: Nós queremos ser livres, queremos ter direitos, liberdade, fazer o que queremos, pensar como entendemos, seguir o caminho que escolhermos, sem que haja ninguém a impedir-nos disso, simplesmente porque somos mulheres, certo?

- Sim.

- Defendemos o fim dos estereótipos, do caminho demarcado, a ideia da mulher como uma máquina de fazer filhos, ou a dona de casa, submissa às ordens do marido, ou do pai.

- Claro.

- Mas a mulher não pode querer participar em programas de televisão, onde há homens que as escolhem, seja para o que for, nos critérios que assim entenderem?

- O quê?

- Estou muito confusa. Afinal, as mulheres podem ser tudo, exceto aquilo que as outras mulheres acham que não podem ser.

- Não é nada disso. Mas...

- Sabes o que a minha mãe sempre fez questão de deixar claro lá em casa? Que por lá "reinava" a democracia... a democracia dela.

 

Ainda bem que a democracia dela me ensinou que liberdade é, também, aceitar que os outros pensem de forma diferente da minha. E não os julgar por isso.

 

M.

07
Jan19

Quando só tens para dizer a primeira coisa que te vem à cabeça, o melhor é não dizeres nada.

quatro de treta e um bebé

Há uns anos, na minha primeira entrevista, tinha à minha frente a um ilustre advogado, que, do nada e sem que nada o fizesse prever, me passava uma folha em branco e uma caneta, e me pedia para escrever qualquer coisa. Qualquer coisa me viesse à cabeça. O que me apetecesse.

 

Hoje, sentada na minha sala, enquanto vejo na TV a notícia de que o meu Benfica venceu, por 4-2, o Rio Ave, estou com a mesma sensação. A sensação de que me passaram um papel e uma caneta para as mãos e me pediram para escrever qualquer coisa. Assim, do nada. Simples e fácil. Escreve. O que te vier à cabeça.

 

Mas... isto não é assim. Não é escreve e pronto. E muito menos é fácil.
Na verdade até me passaram algumas ideias pela cabeça. Mas da mesma forma que naquela entrevista não podia escrever sobre a primeira coisa que me veio à cabeça (até porque a primeira coisa que me veio pela cabeça foi "passou-se"), também aqui, não me parece bem fazê-lo.

 

Pensando bem, viveríamos num mundo bem melhor, se a maior parte das vezes não fizéssemos ou disséssemos a primeira coisa que nos vem à cabeça. Na maior parte das vezes, sai asneira. E é irreversível. Vejamos, a título de exemplo, os comentários de Manuel Luís Goucha acerca de uma entrevista, na qual se confunde o direito de opinião com crime.

 

A propósito, e apenas em jeito de esclarecimento, fascismo, racismo, machismo e homicídio não são questões de opinião. São crimes. Previstos e punidos (e bem) no nosso Código Penal. Infelizmente, e por sua vez, a estupidez crónica não é crime. Ainda. Mas na minha opinião (depois de refletir), devia.

 

Como ainda estamos a tempo de fazer resoluções de ano novo, sugiro que, este ano, as pessoas reflitam antes de dizerem a primeira coisa que lhes vem a cabeça. Vamos todos rever, ponderar e, na maior parte das vezes, guardar só para nós, e reformular antes de falar ou fazer.
Isto claro, se quisermos ser recrutados ou manter um blogue são. Ou, quiçá, não quisermos praticar estupidez crónica na TV. Ou noutro sitio qualquer.

 

Pondo já esta resolução em prática, pensei, ponderei e guardei as ideias que me passaram pela cabeça e vou só divagar até ao final. Tal como fiz na entrevista.

 

Já agora, na tal entrevista, escrevi a minha carta de apresentação. A qual deu origem à resposta: "egocêntrica, como qualquer escorpião". Fui recrutada, deve ter sido um elogio.


M.

06
Set18

Como conhecer pessoas novas quando temos mais de 25 anos

quatro de treta e um bebé

Tenho 26 anos (quase 27), uma relação estável, várias amizades de longos anos.

Não sou propriamente uma pessoa que tenha dificuldade em falar com pessoas, as más-línguas chamar-me-iam até tagarela, apesar de paradoxalmente ter bastante dificuldade em aproximar-me e baixar defesas.

 

Numa conversa recente, falava sobre a dificuldade de conhecer pessoas novas.

Não tenho qualquer interesse romântico em conhecer alguém. Contudo, tanto eu como o meu namorado já passamos, recentemente, por aqueles momentos em que olhamos à volta e pensamos “para onde foram todas aquelas pessoas que se chamavam amigos?!”.

Costumava ser tudo tão mais fácil quando alguém se encarregava de traçar o plano para a nossa vida… Ainda bebés, os nossos pais marcavam encontros com outros bebés. Já crianças, faziam o mesmo, mas já não achávamos tanta piada. Ainda assim, em creches, jardins-de-infância, escolas, sabíamos que tínhamos de passar aquelas horas juntos, no mesmo sítio, por isso lá acabávamos por ficar a conhecer bem aquelas pessoas. Na universidade, mais fácil ainda! Era só entrar pela universidade e lá estavam aquelas pessoas que costumávamos encontrar, um aceno ali, um abraço acolá, duas de treta aqui, e de repente parecíamos verdadeiros animais sociais.

Depois crescemos (pelo menos na teoria, não é M.?!). Temos menos tempo, menos paciência, mais obrigações.

No escritório, as pessoas do costume. No fim-de-semana, as pessoas do costume. No pouco tempo que sobra, queremos estar com aquelas pessoas, o namorado, a família, aqueles amigos que conhecemos tão bem e com quem finalmente conseguimos marcar um café.

 

Vamos lá pensar, quem foram as últimas pessoas com quem fizeram amizade?

Quanto a mim, recentemente, conheci pessoas na Ordem (Olá, meninas!) e no mestrado, mas isso já acabou. E agora?...

 

E reparem que tratando-se de conhecer parceiros românticos, o bicho-de-sete-cabeças multiplica-se.

Se fosse a referendo, éramos capazes de implementar o casamento arranjado, cem por cento de eficácia e zero por cento de preocupações em encontrar alguém, uffa! Reparem no sucesso de programas para conhecer pessoas (de novo, a maior parte parceiros românticos), The BachelorMarried At First Sight (que aparentemente vai chegar a Portugal), Next, Naked Attraction.

 

E a pergunta do milhão de euros é: Como conhecer novas pessoas?

A nossa geração responde logo Tinder! Para os mais desatentos, o Tinder é uma aplicação de encontros românticos, em que se “aprova” uma pessoa pela sua fotografia e, caso haja “aprovação” mútua, se inicia uma conversa. Problema? Além do problema óbvio se destinar apenas a interesses românticos (“mmm, com base nesta foto, acho que esta pessoa vai ser uma excelente companhia para aquela peça de teatro!”), não há como contornar o interesse sexual subjacente. Apesar de histórias de sucesso, de boa gente que se apaixonou e que têm uma relação estável com alguém que conheceram por esta via, deduzo que a esmagadora maioria consubstancia (apenas) uma noite de sucesso. Um Tinder para casais que procuram casais amigos, isso existe?! Nem vou falar do quão aborrecido é ter que explicar que sim, um homem e uma mulher podem, efetivamente, ser amigos, sem a parte do coloridos!

Já ouvi falar de aplicações para marcar jantares com desconhecidos, o que me parece uma ideia genial, como a Foodfriends, mas a verdade é que nunca a experimentei, nem sei como a usar, por isso, não sei se funciona!

Formações ou workshops? Problema, a maioria são pagas.

Saindo à noite? Certo, já conheci muito boa gente dessa forma. Claro que depois há o problema de ter que explicar que estamos na noite à procura de amigos, e, sei lá porquê, a maior parte das pessoas perde o interesse! Acresce que parece que a maior parte das pessoas da nossa idade acham que já passou o tempo de sair à noite, parece que deixou de fazer tanto sentido (certo, F.?! A M. sabe que ainda faz sentido, ainda que o corpo não aguente a mesma frequência!).

Amigos de amigos, sempre uma forte hipótese. Há o senão da pressão de tornar as coisas estranhas, quando eventualmente discutirmos, mas é uma das melhores opções para casos não românticos (ou românticos!).

Coloco um anúncio? Redes sociais (“olá, acho-te muito gira, queres trocar números?”)?

IMG_20180809_164200_812.jpg

Grupos de atividades! Aquele grupo de caminhadas, isso pode parecer interessante. Mas aí estou a criar amizade com uma pessoa que assumidamente gosta de caminhar (credo!).

Ginásio, desporto? Tem de haver uma maneira menos… suada!

Fiz o impensável, recorri ao Google! Claramente, não sou a única com esta interrogação! Desde artigos sobre se “é possível fazer amigos depois de certa idade” até “como encontrar o amor na vida adulta”, encontramos dicas que tornam tudo tão mais óbvio, como “sê sincera”! Ah, afinal é esse o truque... 

google.png

Novas opções e ideias vão surgindo, afinal, de tudo nasce um negócio! Aparentemente, tal como a aplicação que referi acima, existem já páginas e plataformas pensadas para este problema! A plataforma Portuguese Table permite a inscrição de anfitriões que se propõem a cozinhar e a receber um grupo de pessoas, estabelecendo o preço e menu das mesmas. Já a plataforma TastePlease permite a inscrição quer como anfitrião, quer como convidado, e ainda a organização de jantares de grupo com desconhecidos em restaurantes, como uma verdadeira rede social para jantares.

Outro conceito engraçado é o das mesas comunitárias, ou mesas comuns, que vemos surgir em vários restaurantes, como o Brick Clérigos: uma única mesa com vários lugares. Não há “mesa para um”, nem se escolhe quem é a pessoa que se vai sentar ao nosso lado. Diz-se que este conceito convida ao convívio, mais não seja pela vontade de provar aquele prato ou dividir aquela tábua. Ainda não experimentei, mas estou aberta a convites, fica a dica!

(por esta altura já devem ter percebido a ligeira obsessão pela comida 🙊)

 

Há quem o faça parecer fácil (“Have you met Ted?”). 

 

Mas a verdade é que, a partir de uma certa idade, fazer novas amizades parece mais difícil. Será que nos tornamos mais exigentes? Menos crédulos? É porque já nos magoaram demasiadas vezes? É porque nos fazem crer que já temos de ter tudo decidido? Dizia-me essa amiga que sentia que já tinha feito os amigos que tinha de fazer. Como se tivesse fechado a “época de transferências”, plantel fechado. Não acredito que funcione assim. Quero conhecer novas pessoas, que tragam algo de novo à minha vida, que me ofereçam uma perspectiva nova, que estimulem estes velhos neurónios.

 

Como? Ainda estou a investigar essa parte…

 

Há sugestões por aí?

 

R. 

06
Ago18

A caminho dos 30.

quatro de treta e um bebé

Daqui a 3 meses faço 30 anos!

30-anos2.jpg

Estou naquela fase da vida em que todas as conversas acabam da mesma forma: “Então, e

tu?”.
A Antonieta vai casar! #entãoetu? O Carlos vai ser pai! #entãoetu?
Alguémvaifazeralgumacoisaqueésupostotutambémfazeresumavezquesãodamesmaidade! Ou
pior... essa pessoa é mais nova que tu! #entãoetu?
Eu? Bem, eu, apesar dos meus 29 anos, ainda me encontro na fase da adolescência (ou pré-
adolescência, quiçá. E lá explico que em alguns casos isso “dá mais tarde”, como aconteceu
comigo). E ninguém na adolescência (ou pré) pensa em casar, ou ter filhos, ou o que seja que
as pessoas adultas pensam. E se acontece, todos dizem que não devia ter acontecido.
Não sou levada a sério depois de uma resposta destas. Tal como os adolescentes não são
levados a sério. Querem prova melhor que esta?
Socialmente não é aceitável que alguém com quase 30 anos, esteja na fase da adolescência. E
que nenhum adolescente seja Advogado. Sou um génio!!!!!
Vivo sozinha, em Lisboa, tenho emprego (consegui!) e suporto as minhas despesas (por incrível
que possa parecer fazer isso em Lisboa). Mas por favor não contem a nenhuma técnica da
segurança social. Arrisco-me a que instaurem um processo contra os meus pais por permitirem
que a filha adolecente se encontre nesta situação.
De qualquer forma, e analisando o percurso até então, livro-me, ao que tudo indica, que pelo
menos os meus pais não entrem com um processo contra mim por não sair de casa.
À parte isso, ser adolescente aos 29 anos tem as suas vantagens. Recordo-me, a título de
exemplo, que nunca vou fugir de casa a meio da noite porque os meus pais não me deixaram
sair – seria só ridiculo sair escondida a meio da noite da minha própria casa, onde vivo sozinha.
Por outro lado, também tem algumas desvantagens. Afinal, toda a gente espera que cresças
rápido, te tornes adulta e acabes por responder, o quanto antes, aos anseios de uma
sociedade que se encontra extremamente preocupada com a dimunição das taxas: de
natalidade, de casamentos realizados, de divórcios. As do IVA, IMI e SS não tem problema.
Só para mim, que apesar de adolescente, não me livro delas.

 

M.

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